sexta-feira, 11 setembro, 2026
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Artigo: Resistência à insulina

Por: Arthur Micheloni*

Quando pensamos em diabetes, é comum imaginar que o primeiro sinal de alerta será uma glicemia elevada em um exame de sangue. No entanto, o organismo pode passar muito tempo enfrentando alterações metabólicas antes que a glicose ultrapasse os valores considerados normais.

Um dos processos envolvidos nessa trajetória é a chamada resistência à insulina.

A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas e desempenha papel fundamental no controle da glicose, permitindo que ela seja utilizada pelas células como fonte de energia. Quando os tecidos passam a responder de maneira menos eficiente à sua ação, o organismo tenta compensar produzindo quantidades maiores desse hormônio.

Durante algum tempo, essa estratégia pode funcionar. A glicemia permanece aparentemente normal, enquanto o pâncreas precisa trabalhar cada vez mais para manter esse equilíbrio. É justamente por isso que olhar apenas para a glicose isoladamente nem sempre conta toda a história metabólica de uma pessoa.

Com a progressão do quadro, a capacidade de compensação pode diminuir. A partir daí, começam a aparecer alterações como pré-diabetes e, posteriormente, diabetes tipo 2.

Mas reduzir a resistência à insulina a uma discussão sobre açúcar no sangue seria simplificar demais o problema.

Ela frequentemente está associada ao aumento da gordura visceral (aquela localizada principalmente na região abdominal), além de alterações nos triglicérides, no colesterol, na pressão arterial e no metabolismo do fígado. Em muitos pacientes, esses fatores aparecem simultaneamente e ajudam a aumentar o risco de doenças cardiovasculares ao longo dos anos. Por isso, o peso corporal não deve ser analisado de maneira isolada.

Duas pessoas com o mesmo peso podem apresentar condições metabólicas completamente diferentes. Circunferência abdominal, composição corporal, histórico familiar, pressão arterial, glicemia, hemoglobina glicada e perfil lipídico são algumas das informações que ajudam a construir uma avaliação mais completa. Dependendo das características de cada paciente, outros exames também podem ser necessários.

O mais importante é compreender que saúde metabólica não cabe em apenas um número.

A alimentação continua sendo uma das bases do cuidado. Porém, isso não significa viver sob dietas extremamente restritivas ou eliminar grupos inteiros de alimentos sem necessidade.

Uma estratégia eficiente precisa ser possível de manter. Priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, aumentar o consumo de verduras, legumes, frutas e leguminosas, garantir boas fontes de proteínas e adequar a ingestão de gorduras são medidas muito mais importantes do que procurar soluções milagrosas. Ao mesmo tempo, reduzir a frequência de refrigerantes, bebidas açucaradas, excesso de açúcar e produtos ultraprocessados pode produzir benefícios importantes para a saúde metabólica.

O exercício físico é outro componente fundamental. O músculo é um dos principais tecidos responsáveis pela utilização da glicose. Quando uma pessoa pratica atividade física regularmente, especialmente exercícios de força associados ao exercício aeróbico, o organismo tende a utilizar melhor essa glicose e a responder de maneira mais eficiente à insulina.

Além disso, a atividade física auxilia no controle da pressão arterial, melhora o perfil lipídico, ajuda na redução da gordura visceral e contribui para preservar a massa muscular, algo especialmente importante durante os processos de emagrecimento.

E as “canetas para emagrecer”?

Nos últimos anos, medicamentos como semaglutida e tirzepatida ganharam enorme espaço no tratamento da obesidade e das alterações metabólicas. Eles não devem ser vistos apenas como medicamentos para fazer o número da balança diminuir.

Em pacientes corretamente selecionados, essas terapias podem favorecer uma perda de peso significativa e melhorar diversos parâmetros metabólicos, como controle glicêmico, circunferência abdominal e outros fatores relacionados ao risco cardiovascular. Algumas dessas medicações também vêm acumulando evidências importantes de benefícios cardiovasculares em determinados grupos de pacientes. Isso, porém, não transforma a medicação em substituta da alimentação adequada ou da atividade física. O melhor resultado acontece quando diferentes estratégias trabalham juntas.

O medicamento pode auxiliar no controle do apetite e na perda de peso, enquanto a alimentação fornece os nutrientes necessários e o treinamento físico ajuda a preservar a massa muscular e melhorar a capacidade funcional. O tratamento precisa ser planejado de forma individual, considerando idade, composição corporal, doenças associadas, medicamentos em uso e objetivos de cada pessoa.

O grande erro seria transformar o tratamento da obesidade e da resistência à insulina em uma simples corrida atrás de quilos perdidos.

Emagrecer pode ser importante, mas o verdadeiro objetivo deve ser reduzir gordura visceral, preservar ou aumentar massa muscular, melhorar os exames, controlar a pressão arterial, diminuir o risco cardiovascular e permitir que a pessoa viva mais e com melhor qualidade.

As novas medicações trouxeram ferramentas extremamente relevantes para o tratamento da obesidade. Ainda assim, nenhuma tecnologia muda um princípio básico da saúde, ‘’quanto mais cedo identificamos os sinais de desequilíbrio metabólico e começamos a agir, maiores são as possibilidades de impedir que um problema silencioso se transforme em uma doença instalada’’.

* Arthur Micheloni é Fisioterapeuta, Nutricionista e licenciado em Ciências Biológicas. Possui pós-graduação em Osteopatia, Fitoterapia, Ortopedia e Traumatologia, Nutrição no Transtorno do Espectro Autista e Nutrição Esportiva. Atua com abordagem baseada na Medicina Integrativa, unindo ciência e experiência clínica. drarthur@clinicamicheloni.com

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.