sábado, 22 agosto, 2026
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Arte em Foco – Criar ainda é humano?

Por: Larissa Cabreira*

O avanço da inteligência artificial trouxe uma mudança importante na forma como a gente cria e se comunica.

Ferramentas que antes pareciam distantes hoje fazem parte da rotina. Elas escrevem textos, geram imagens, organizam ideias e aceleram processos que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente do tempo e do raciocínio humano.

Isso, por si só, não é um problema. Pelo contrário. A tecnologia sempre esteve ligada à evolução das formas de produção. E a inteligência artificial pode ser uma ferramenta extremamente útil quando usada com consciência.

A questão não é a existência da IA. É a forma como ela está sendo utilizada.

Em áreas criativas, como ilustração, comunicação e produção de conteúdo, o impacto disso é ainda mais visível. Hoje é possível transformar uma ideia em imagem em poucos segundos. É possível gerar textos completos a partir de comandos simples. É possível acelerar etapas inteiras de um processo criativo.

Mas o que começa a ser discutido com mais frequência é o risco de algo mais sutil: a substituição do pensamento.

Criar não é apenas executar uma ideia pronta. Criar envolve dúvida, construção, erro, revisão e escolha. Existe um processo mental e sensível que não está apenas no resultado final, mas em tudo o que acontece antes dele.

Quando esse processo é totalmente terceirizado, a tendência é que a criação também se torne superficial.

Não porque a ferramenta não seja capaz de gerar algo tecnicamente bom, mas porque ela não substitui a emoção humana.

Na ilustração, por exemplo, cada traço carrega decisões. Cada tentativa faz parte de um caminho. E esse caminho também é parte do trabalho.

Quando a criação se resume apenas ao resultado final, sem processo, sem reflexão e sem escolha, existe um risco de esvaziamento do que entendemos como autoria.

Isso não significa rejeitar a tecnologia.

Significa entender o lugar dela.

A inteligência artificial pode ser uma aliada importante. Pode ajudar a acelerar etapas, organizar ideias e ampliar possibilidades. Mas ela precisa ser usada como ferramenta de apoio, não como substituição do pensamento crítico e criativo.

No meu trabalho com comunicação e ilustração, isso se torna cada vez mais evidente. A tecnologia pode contribuir com processos, mas não substitui a interpretação e a intenção por trás de cada escolha.

Talvez o ponto central não seja resistir à inteligência artificial, mas aprender a usá-la sem abrir mão do que é essencial no processo criativo.

No fim, criar ainda é um ato humano.

E quando a ferramenta começa a pensar por nós, o risco não está na tecnologia em si, mas na forma como escolhemos nos posicionar diante dela (e sobre todas as escolhas da nossa vida).

*Larissa Cabreira é colaboradora d’O Defensor.