Por: Gustavo Girotto*
Minha paixão é o carnaval desde criança. Não sei bem quem carrega essa culpa, mas existe prova material: uma foto minha, aos três anos, desfilando na Batata Doce de Taquaritinga. Pequeno no tamanho, enorme na entrega. Já era do batuque.
O tempo passou — e com ele as escolhas que a vida impõe sem pedir licença. Parei de ir a Taquaritinga no carnaval. Amo. É, sem exagero, o carnaval mais bonito do interior. Mas não vou mastigar o óbvio: vaidade inflada de meia dúzia (cansa) e ruído que chega com ar de propriedade. Quando a idade chega, a gente aprende a escolher melhor o que aguenta… e, principalmente, o que quer celebrar.
Foi aí que Águas de Lindóia me afinou em outra sintonia. Encontrei uma turma que reconheci de primeira: energia boa, samba leve, mas organizado — coisa séria feita com alegria, como manda o figurino. O Cavalinho Branco, aliás, é tradição de vitórias. Nenhum mérito meu, fique claro. O mérito é deles. Eu só chego pra somar, como bom ritmista de chegada.
E então veio o Passaram a Mão na Pompéia. É família. Só craque no batuque. Gente que toca em escola de samba da Liga Especial, mas sem pose, sem estrela no ombro, sem salto alto no chão. Cheguei e fui abraçado. Acolhido. Integrado. Do jeito que o samba gosta — sem senha, sem cerimônia.
Na véspera, como manda o ritual sagrado, a turma se junta e a rua vira roda. O samba nasce assim: no encontro. Esse cara da foto — espírito gigante — solta no cavaco um refrão que arrepia: – “Bom é recordar, bom demais / Velhos lampiões de gás, candelabros, garoa, galos nos quintais…”
E completa, com orgulho simples e bonito: – “Essa era do meu pai”.
De samba-enredo, confesso, tenho memória boa. “Non Ducor, Duco”, Rosas de Ouro — uma das obras mais emblemáticas da história da escola. Samba que ensina sem gritar.
Logo depois, o Pedroca emenda:
“Eu bebo sim, e vou vivendo…”
Samba de 1973, eternizado na voz de Elizeth Cardoso, composto por João do Violão. E João do Violão não é só compositor: é o pai do Pedro. Ali, o samba deixa de ser música. Vira herança. Vira continuidade.
Porque samba é isso: alegria que se transmite, amizade que se constrói, encontros que só acontecem quando o tambor chama. Está aberta a temporada de espera da nossa ópera de rua — o espetáculo mais bonito já criado por brasileiros.
Ali, a menina da periferia é rainha.
O mestre de bateria é gente da gente.
E o coração bate no mesmo compasso do surdo. Eu amo o carnaval. Aos que prestam atenção, ele ensina. Aos que acham que é só cifra, ele vai se perdendo no eco. E, aos que se acham donos, olha a multidão: ela não pede licença para sambar…
*Gustavo Girotto é jornalista.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



