Por: Arthur Micheloni*
Nos últimos anos, um problema de saúde vem chamando a atenção de médicos e nutricionistas, o ‘’acúmulo de gordura no fígado”. Ele pode atingir pessoas de todas as idades, especialmente aquelas com sobrepeso, resistência à insulina ou hábitos alimentares desajustados. O mais preocupante é que, muitas vezes, a esteatose hepática (gordura no fígado) se instala em silêncio, sem causar dor, febre ou sintomas evidentes. Quando a pessoa descobre, geralmente foi por acaso, normalmente através de exames de rotina, como os de TGO, TGP e Gama GT.
Hoje, esse quadro é chamado de Doença Hepática Gordurosa Associada à Disfunção Metabólica (MASLD), um nome novo para o que antes conhecíamos como “gordura no fígado não alcoólica”. Ele indica que a causa não está no consumo de bebidas alcoólicas, mas sim em fatores ligados ao estilo de vida e à alimentação.
O fígado é um dos órgãos mais importantes do corpo. Ele filtra toxinas, participa da digestão das gorduras e regula boa parte do metabolismo.
Quando o organismo acumula gordura em excesso, especialmente no abdômen, parte dessa gordura começa a se depositar também no fígado. Aos poucos, isso gera inflamação e dificulta o funcionamento normal do órgão.
Se nada for feito, o quadro pode progredir para hepatite gordurosa, fibrose e até cirrose, comprometendo de forma irreversível a saúde hepática.
O grande desafio dessa condição é que ela não dá sinais claros. A maioria das pessoas com fígado gorduroso se sente bem. Mesmo assim, alguns alertas merecem ser observados, como cansaço constante, mesmo dormindo bem, desconforto leve ou sensação de peso na parte superior direita do abdômen, inchaço abdominal, gases e digestão mais lenta e alterações em exames de sangue, como aumento das enzimas hepáticas (TGO, TGP e GGT).
Muitos pacientes só descobrem o problema após um ultrassom de rotina ou um check-up anual, e é aí que a prevenção mostra seu valor.
O diagnóstico geralmente começa com exames laboratoriais e ultrassom abdominal, capazes de identificar a presença de gordura no fígado.
Quando há suspeita de inflamação ou dano mais avançado, o médico pode solicitar elastografia hepática (fibroscan) ou até biópsia para avaliar o grau de comprometimento.
O acompanhamento com um profissional de saúde é essencial para monitorar a evolução e ajustar as estratégias de tratamento.
O excesso de peso é o fator de risco mais comum, mas não o único.
Quando o corpo acumula gordura além do que consegue utilizar, essa gordura passa a circular na corrente sanguínea e pode ser armazenada no fígado. Isso está ligado à resistência à insulina, um mecanismo do nosso metabolismo que reduz a eficiência do organismo em controlar o açúcar no sangue.
Mas vale o alerta, até pessoas magras podem ter gordura no fígado se levarem uma vida sedentária e mantiverem uma alimentação baseada em açúcares, farináceos e ultraprocessados, ou, até mesmo por uso de medicamentos hepatotóxicos.
A boa notícia é que a gordura no fígado tem reversão total, desde que o diagnóstico seja precoce e o estilo de vida seja ajustado.
Estudos mostram que perder entre 5% e 10% do peso corporal já é suficiente para reduzir significativamente a gordura hepática.
Basta equilibrarmos a alimentação, com menos industrializados, frituras e refrigerantes, aumentarmos o consumo de frutas, verduras, legumes e gorduras boas como azeite de oliva e castanhas, praticarmos exercícios físicos com regularidade, ao menos 3 horas semanais e termos um sono adequado junto do controle do estresse, que influenciam diretamente o metabolismo.
A ciência tem avançado muito na compreensão da MASLD.
Pesquisas recentes mostraram que medicamentos usados para emagrecimento, como os agonistas de GLP-1 (exemplo: semaglutida e tirzepatida), podem melhorar o funcionamento do fígado e reduzir o acúmulo de gordura hepática em pacientes com obesidade. Um artigo publicado em 2023 no New England Journal of Medicine e outro na Diabetes Care mostram reduções de até 60% no conteúdo de gordura no fígado após 48 a 72 semanas de uso de tirzepatida (mounjaro) em pacientes com obesidade ou diabetes tipo 2.
Cuidar do fígado é cuidar de todo o metabolismo. Ele é o centro de equilíbrio do corpo, o responsável por transformar o que comemos em energia e eliminar o que nos intoxica.
A gordura no fígado não é apenas um problema do fígado, é um reflexo de como estamos vivendo.



