Por: Rodrigo Panichelli*
Não sei se dá pra chamar a Copa de 1990 de bonita. Tecnicamente, não foi. Mas foi uma Copa de transição — e eu, com 10 anos de idade, já começava a entender o jogo além da bola. Esquemas táticos, regras, a tal da força física começando a engolir a técnica. O futebol estava mudando, e eu, menino, começava a perceber isso.
A abertura foi um soco na cara do favoritismo: Camarões venceu a toda poderosa Argentina de Maradona. E o mundo conheceu Roger Milla — o dançarino da bandeirinha, o veterano que, anos depois, se tornaria o jogador mais velho a atuar em Copas.
A Colômbia também apareceu, com o goleiro Higuita — um dos primeiros a jogar com os pés — que foi de herói a vilão em minutos. Mas que time! Valderrama, o cabeludo loiro que parecia um rockstar, Rincon, Asprilla… um futebol bonito, ousado.
E o Brasil? Ah, o Brasil…
Um técnico que acreditava no 3-5-2 antes da hora, uma seleção sem confiança e uma eliminação que até hoje gera conversa. O time jogou melhor que a Argentina, mas perdeu. Falam em “água batizada”, azar, castigo. Eu prefiro a velha máxima: a bola pune.
O país também não estava bem. Em 1990, o Brasil vivia recessão, inflação de 80% ao mês, e o governo confiscando o dinheiro do povo. A economia era um campo minado. Parecia o Brasil de hoje em certos momentos: o povo sem saber pra onde correr, e o dinheiro escorrendo pros mesmos de sempre.
No fim, a história se repetiu: Alemanha e Argentina na final. Um jogo ruim, decidido num pênalti duvidoso. Se tivesse VAR, talvez nem fosse marcado. A não ser, claro, se o VAR fosse brasileiro — aí passava batido.
Eu, dessa vez, não chorei como em 1986. Fiquei triste, sim. Queria o Brasil campeão. Mas aquela Copa me marcou. Talvez não pelos gols, mas pelas figurinhas do álbum, pelos nomes que eu decorava e repetia com orgulho, como se narrasse o mundo inteiro num quarto de criança.
Era a paixão tomando conta.
O futebol virando memória.
E a Copa, mais uma vez, virando parte da minha história



