sexta-feira, 1 maio, 2026

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Nossa Palavra – Fome em tempos de abundância: a contradição que envergonha o Brasil

Em um país que é reconhecido mundialmente como potência agrícola, falar em fome é mais do que um paradoxo — é uma acusação moral. No Dia Mundial da Alimentação, o Brasil é confrontado com uma realidade que desmente seus recordes de produção: enquanto os grãos batem sucessivos recordes nas estatísticas oficiais, milhões de famílias brasileiras ainda enfrentam o vazio mais cruel — o da mesa sem comida.

Segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN), mais de 70 milhões de brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar, e cerca de 21 milhões passam fome. É uma tragédia silenciosa, escondida sob o tapete da abundância. O país que alimenta o mundo é incapaz de garantir o alimento básico a todos os seus filhos. E essa contradição revela a fragilidade estrutural de nossas políticas públicas, o abandono social e o descompasso entre a produção e a distribuição de riquezas.

O Brasil aprendeu a comemorar safras recordes, exportações bilionárias e superávits comerciais, mas se esqueceu de celebrar o essencial: o direito de todos à comida digna, nutritiva e suficiente. A fome contemporânea não é apenas falta de alimento — é o resultado de desigualdade, desgoverno e descaso. É o retrato cruel de um sistema que privilegia o lucro acima da vida.

Enquanto o agronegócio prospera, com tecnologia de ponta e cifras astronômicas, as periferias das grandes cidades e as zonas rurais mais pobres testemunham o drama cotidiano de quem precisa escolher entre pagar o gás ou comprar o arroz. A inflação alimentar castiga os mais vulneráveis, e o Estado, que deveria agir como garantidor do mínimo vital, tem se mostrado lento, burocrático e, muitas vezes, ausente.

Não se trata de romantizar o campo nem demonizar o agronegócio. Trata-se de exigir responsabilidade social e equilíbrio. Produzir não é o suficiente. É preciso distribuir, planejar, investir em logística e programas de apoio direto às famílias em situação de vulnerabilidade. É preciso pensar em segurança alimentar como política de Estado, e não como ação emergencial ou bandeira de governo.

O problema da fome no Brasil é também um problema de prioridades políticas. Quantos recursos se perdem em corrupção, obras inacabadas, privilégios e benesses parlamentares, enquanto milhões dependem de doações ou de um prato servido em projetos sociais? Quantas vezes a pauta da alimentação digna é substituída, no Congresso, por debates de conveniência eleitoral, que nada tocam na realidade de quem tem fome hoje, agora, neste exato momento?

É inadmissível que um país de tamanho potencial siga refém de uma contradição histórica: o Brasil exporta comida, mas importa dignidade. Fala em desenvolvimento, mas mantém crianças subnutridas. Defende o crescimento econômico, mas se cala diante do sofrimento humano.

O Dia Mundial da Alimentação deveria ser um símbolo de progresso, mas por aqui ainda é um grito de socorro. Um grito que ecoa nos barracos, nas cozinhas improvisadas, nas escolas públicas e nas filas por doações. Um grito que denuncia a omissão do poder público, mas também a indiferença da sociedade, muitas vezes anestesiada pelo consumo e pela superficialidade.

A fome é o mais cruel dos espelhos — reflete o fracasso coletivo de uma nação que ainda não aprendeu a garantir o básico. E enquanto houver um só brasileiro dormindo com o estômago vazio, não há prosperidade que se sustente, nem economia que possa ser chamada de saudável.

É tempo de reagir. De cobrar dos governantes mais do que discursos emocionados e campanhas pontuais. É tempo de exigir ações permanentes, fiscalização séria e prioridade absoluta no combate à insegurança alimentar. A fome é uma urgência que não pode esperar o próximo mandato, o próximo orçamento, a próxima eleição.

Que o Dia Mundial da Alimentação não seja apenas mais uma data simbólica no calendário, mas um chamado à consciência nacional. Porque nenhum país que aceita a fome como rotina pode se considerar verdadeiramente livre, justo ou civilizado.