quinta-feira, 30 abril, 2026

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Crônica: O pior dia na vida de alguém pode estar acontecendo ao seu lado

Por: Sérgio Sant’Anna*

Olhei fixamente para o título da minha crônica e logo pensei: ele ocupa o lugar da minha introdução. Reparem que fui logo colocando um ponto final para que o mesmo não se desenvolvesse um pouco mais e rompesse com as margens ( “As margens e o ditado”, de Elena Ferrante). E pasmem, sempre afirmo aos meus alunos para colocarem o título sempre ao final do texto construído. Porém, com este pareceu-me diferente. Confesso que quanto mais começo a me autoanalisar, a descobrir mais de mim, início uma busca pelo outro. Talvez esteja no outro o meu eu?

Não é fácil para cada um de nós convivermos de maneira harmônica com a nossa vida. Nem mesmo com o outro o qual lidamos cotidianamente, principalmente no mundo do trabalho. Muitas vezes a nossa ânsia pelo coletivo acaba sendo tragada pelo individualismo acentuado daquele que tu menos esperavas. E tudo bem. Vida que segue. O narcisismo faz parte do jogo. As máscaras caem após os bailes carnavalescos e as garras são demonstradas a partir do momento que as oportunidades são reveladas.

Confesso que nessa busca pelo desejo de retirada interna, principalmente no cavoucar de elementos que possam contribuir com o meu processo criativo, abro minhas asas para enxergar os problemas internos que o meu semelhante carrega. E aqui muno a minha escrita de empatia, altruísmo, porque não é fácil, principalmente, aqueles que não tem com quem contar. Aquele olhar triste, solitário, aquela palavra mais agressiva, aquele silêncio sepulcral, muitas vezes, é o reflexo dos problemas que nos acometem a todo instante. Essa venda de felicidade que o mundo da autoajuda traz é apenas para a venda de mercadorias. A real sociedade do espetáculo como disse, Guy Debord. A felicidade tem que ser ensinada como algo efêmero, assim como a tristeza, entre outros. Vivemos numa sociedade líquida como bradou Bauman. Talvez o outro não necessite de um conselho, mas aquele bom dia dado com motivação seja a luz que o próximo necessitava naquele momento ou mesmo o seu abraço, o ombro dado como apoio. E mesmo que a recepção seja negativa faz parte desse luto. Mas, algo foi semeado. A reflexão acontecerá. Pensamentos começarão a passar por um processo de ebulição, e, com certeza, algo mudará na vida daquele nosso semelhante.

Sei sim que a vida nestes tempos não está fácil. Vivemos tempos difíceis. Momentos em que tudo acaba se diluindo. Parece-me que quanto mais conectados estamos, mais distante somos. Falta contato. Falta toque. Falta olho no olho. Falta elogio. Falta observação. Falta perdão. Falta absorvição. Falta tesão. Falta libido. Falta amor. Falta cheiro. Não utilizamos mais de maneira aguda os nossos sentidos. Utiliza-os como elementos do sobreviver. Falta poesia. Falta humanidade. Falta olhar para o outro e dizer: queres ajuda?

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.