sábado, 2 maio, 2026

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Crônica: Achei a Porrrta, a Porrrteira e Porrrtão

Por: Gustavo Antonio Ascencio*

Morei em São Paulo por seis anos, tempo suficiente quando se é observador o bastante para entender meia dúzia de coisas que vão mudar a sua vida para sempre e outras tantas capazes de justificar, modificar ou até mesmo criar novas idiossincrasias.

Certa vez no metrô, algo entre Oscar Freire e Paulista, uma senhora desatenta esbarrou em mim e cometeu o mortífero crime paulistano de pedir desculpas, ao passo que lhe respondi com o meu habitual “acha”. Para além de discussões linguísticas mais profundas sobre a semântica desse vocábulo, acredito que boa parte dos taquaritinguenses que me leem, senão todos, entenderiam perfeitamente essa interação. Fato é que, no ato da minha fala, a senhora passou a procurar por alguma coisa no chão, o que me levou a presumir que ela havia perdido algo em decorrência do encontro brusco que tivemos segundos antes. Para ajudá-la, passei a procurar o que quer que fosse também. Estávamos nós dois lá, buscando por algo desconhecido, até que perguntei a ela o que havia sido perdido, afinal. E então, confusa, aquela pessoa a qual nunca mais vi na vida replica “ué, não foi você quem perdeu?”.

Voltemos ao meu acha, o pavio de toda aquela confusão. Higienópolis depois, finalmente compreendi que minha fala havia sido tomada como um imperativo do tipo “ache (o que perdi, afinal você trombou em mim)”. O valor na língua, como nos explica um tal de Saussure, pai do estruturalismo linguístico, se dá pela oposição, pela diferença; ora, no paulistanês existe uma diferença entre dizer “acha” e “imagine”. A primeira expressão para eles é mais literal, sinonímica a “encontrar”, “localizar” etc; já a segunda, apesar de sua intrínseca denotatividade, também é usada hegemonicamente nesses contextos figurados. Em resumo, nós falamos o caloroso acha enquanto eles proferem o aristocrático imagine, muito embora ambos queiramos dizer a mesmíssima coisa: “não foi nada, não há necessidade de desculpas”.

Saindo do campo semântico-lexical para o fonológico, lembro-me de, antes de mudar-me para a capital, vez ou outra ouvir alguns conterrâneos dizer que possuíamos um “r” mais puxado, contudo nunca soube concluir o que isso queria dizer de fato. Para mim erres eram erres e ponto final. Evoco o bigodudo sueco novamente: o valor linguístico se dá pela diferença; quando não há um referente a ser comparado, não há valor. Bem, isso muda quando me mudo para a cidade da garoa e passo a inconscientemente ouvir o tal do erre paulistano. Logo nas primeiras conversas, empiricamente noto que não temos a mesma pronúncia.

Um semestre depois, quando entro na habilitação de Linguística, meu professor esclarece as coisas para uma turma atenta da qual faço parte: o erre dito caipira é chamado de retroflexo, já o da capital recebe o vulgo de tepe. No alfabeto linguístico inclusive cada um é escrito de uma forma diferente: /ɻ/ é como falamos aqui; /ɾ/ o deles por lá. Não sei vocês, mas particularmente acho o nosso mais estiloso (grafica e sonoramente). Aprendi também que, do ponto de vista da articulação, nós pegamos a ponta da língua e jogamos ela para trás em direção ao palato, uma vez que paulistanos levam a ponta deles aos alvéolos (um pouco acima dos dentes). Somos diferentes, até nisso…

Eu tive vergonha por um tempo, reneguei meu “capirês” cheio de achas e erres retroflexos. No dia a dia, em apresentações acadêmicas, tentava replicar a fala da capital. Mas não demorou muito para que entendesse o óbvio. É a terceira vez que repito a mesma máxima nesta crônica: o valor está na diferença. Ao homogeneizar os meus acentos e escolhas de palavras, matava o meu sotaque, arruinava quem eu era e com isso perdia o meu próprio valor, algo que não voltarei a fazer jamais.

Assim sendo, vamos todos juntos repetir o nosso mantra: Porrrta, Porrrteira e Porrrtão!

*Gustavo Antonio Ascencio é escritor e professor formado em letras na USP.