quinta-feira, 30 abril, 2026

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Nossa Palavra – O fim da Santa Elisa: entre a cana, a crise e a memória coletiva de Sertãozinho

A manhã de 15 de julho de 2025 não será esquecida tão cedo pelos moradores de Sertãozinho. A data marca o encerramento definitivo das atividades da Usina Santa Elisa, uma das mais tradicionais unidades sucroenergéticas do interior paulista, símbolo industrial que resistiu por quase nove décadas. O anúncio, feito pela Raízen, empresa controlada pelo grupo Cosan, soa como um alerta incômodo — não apenas sobre o fim de um ciclo, mas sobre o risco de apagamento de memórias e identidades que moldaram gerações.

Fundada nos anos 1930 por Maurílio Biagi (pai), a “Santelisa”, como era carinhosamente chamada, não foi apenas uma usina. Foi escola de trabalho, símbolo de progresso, sustentação de milhares de famílias e um dos motores da economia local. Sua presença, ainda que silenciosa nas últimas safras, era mais que produtiva — era emocional. Para quem vive ou já viveu em Sertãozinho, a Santelisa era parte da própria geografia afetiva da cidade.

O anúncio da Raízen, embora esperado por especialistas do setor, cai como uma pancada para a comunidade. A usina operava sob recuperação judicial e enfrentava problemas financeiros persistentes. Mesmo com tentativas de venda e de reestruturação do ativo — que já esteve sob a bandeira da Louis Dreyfus em 2009, antes de ser incorporado pela Raízen em 2021 — não houve sucesso. Diante de uma dívida líquida superior a R$ 34 bilhões, a empresa optou por encolher, enxugar, fechar.

Embora os canaviais permaneçam em atividade, com o escoamento da safra sendo absorvido por grupos como São Martinho, Bazan, Balbo, Usina da Pedra e Toniello, o impacto sobre a economia local é inevitável. Não é só o emprego direto que se perde. É o comércio que perde movimento, o transporte que perde rota, o morador que perde horizonte. A engrenagem socioeconômica sente o tranco de forma imediata, silenciosa e prolongada.

Em uma cidade que fez da cana-de-açúcar sua identidade produtiva, o fechamento da Santa Elisa é simbólico. É a quebra de um elo com um passado de abundância industrial, que agora cede espaço à incerteza de um novo modelo de negócios, mais enxuto, automatizado e, muitas vezes, menos inclusivo socialmente.

A queda da Santa Elisa não ocorre em um vácuo. Ela reflete a transformação acelerada no setor sucroenergético: a pressão por produtividade, os efeitos da mecanização, as oscilações climáticas severas, as exigências de financiamento sustentável e a concorrência globalizada. O modelo das grandes usinas de antigamente, com seu gigantismo e estrutura inchada, está cedendo a formatos mais ágeis, verticalizados e digitalizados.

Essa nova lógica de mercado exige resiliência e reinvenção. Mas a pergunta que fica é: quem paga o preço dessa transição? Certamente, por enquanto, são os trabalhadores demitidos, os pequenos fornecedores, os comerciantes do entorno e, principalmente, a identidade coletiva que se vê amputada.

Se é verdade que o fechamento da Santa Elisa é uma resposta a pressões financeiras legítimas, é também verdade que não se apaga da noite para o dia a história de uma usina que atravessou quase um século de existência. É necessário que o poder público, as instituições locais e a própria Raízen reconheçam a importância de preservar essa memória industrial — seja por meio de museus, arquivos, ou mesmo da reconversão do espaço para novos usos produtivos.

A história da Santa Elisa não deve ser apenas um rodapé de balanço financeiro. Ela precisa ser contada, registrada e lembrada como parte do DNA de Sertãozinho, pois é nela que se refletem as dores e as vitórias de uma comunidade que aprendeu a viver da terra e do suor.

O fim da Santa Elisa não é apenas um ponto final, mas um ponto de interrogação. O que virá depois? Como garantir emprego, identidade e continuidade sem cair no saudosismo improdutivo ou no pragmatismo frio das planilhas? É hora de refletir, propor políticas públicas de desenvolvimento regional, investir em qualificação e abrir espaço para que Sertãozinho siga sendo, apesar da perda, um território de esperança e reconstrução.