sábado, 30 maio, 2026

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Coluna Clikando – Frio em Taquaritinga

Por: Gabriel Bagliotti*

Hora de aquecer o corpo e a consciência coletiva

Taquaritinga tem enfrentado dias gelados, com temperaturas que nos forçam a resgatar casacos e cobertores esquecidos no fundo dos armários. Para muitos, é apenas um incômodo sazonal — uma mudança de clima que exige adaptações na rotina e no vestuário. Mas para outros, é uma questão de sobrevivência. O frio, que para alguns é apenas desconforto, para os mais vulneráveis é sinônimo de risco e sofrimento.

Diante das baixas temperaturas, campanhas do agasalho se tornam ações indispensáveis. Seja por iniciativa do poder público, através do Fundo Social de Solidariedade, seja por meio das inúmeras entidades e grupos de voluntários que atuam com afinco em Taquaritinga, essas mobilizações são essenciais para levar acolhimento e dignidade a quem pouco ou nada tem. Porém, é preciso ir além da solidariedade pontual.

A situação das pessoas em situação de rua, que passam as noites ao relento, escancaradas ao frio cortante, não pode ser tratada apenas como um problema temporário a ser amenizado com uma blusa ou cobertor. Exige olhar crítico, políticas públicas permanentes e vontade política real. A realidade é que, enquanto ajustamos nossos cômodos para nos proteger do inverno, há cidadãos tentando sobreviver em bancos de praça ou sob marquises — invisíveis para muitos, ignorados por outros, abandonados pelo poder público em diversos momentos do ano.

É preciso, sim, lembrar dos ensinamentos cristãos de acolhimento e cuidado com o próximo, mas também cobrar do Estado sua responsabilidade constitucional com essas pessoas. Assistência social, programas de acolhimento, abrigos temporários com dignidade e, principalmente, estratégias de reinserção social, devem ser prioridade durante os períodos de frio extremo — e mantidos como política de longo prazo, fora da sazonalidade das campanhas.

Ao mesmo tempo, é inegável o espírito solidário de Taquaritinga. Nossa cidade tem se mostrado, ao longo dos anos, generosa e voluntariosa. Mas não devemos nos acomodar no conforto de saber que “alguém está fazendo algo”. Todos podemos — e devemos — fazer a nossa parte. Seja doando um agasalho, seja contribuindo com campanhas, seja comprando roupas a preços acessíveis que muitas lojas oferecem nesse período, o importante é agir.

No entanto, o futuro exige mais. Exige que olhemos para a estrutura social da cidade, para as causas da vulnerabilidade, e não apenas para os efeitos imediatos. Exige planejamento. Exige políticas públicas comprometidas. Exige gestores capazes de enxergar o frio como mais do que uma condição climática: como um desafio humano que testa, a cada inverno, o nível de empatia e responsabilidade social de nossa comunidade.

Neste inverno — e em todos os outros — que Taquaritinga siga se aquecendo. Mas que o calor que nos move venha tanto dos cobertores distribuídos quanto da chama de uma cidadania ativa, crítica e solidária. O frio passa, mas as consequências da indiferença podem durar para sempre.

*Gabriel Bagliotti é jornalista responsável e diretor presidente de O Defensor.