terça-feira, 26 maio, 2026

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Jogando Limpo – “Técnico no Brasil: herói provisório ou bode expiatório permanente?”

Por: Rodrigo Panichelli*

No Brasil, a figura do treinador de futebol tornou-se refém de um ciclo vicioso alimentado por dirigentes amadores, imprensa imediatista e torcedores impacientes. O técnico é contratado para ser o salvador, mas no primeiro tropeço vira o vilão. A média de tempo de trabalho no país é uma das mais baixas do mundo, inferior até mesmo à da Bolívia e do Paraguai. Treinadores não completam sequer uma temporada. O que isso diz sobre nosso futebol?

Não se trata apenas de resultado. Muitos são demitidos com aproveitamento superior a 50%. O que está em jogo é o despreparo das diretorias, que montam elencos sem critério, contratam técnicos com estilos opostos e, depois, exigem “resultados imediatos”. O planejamento, se é que existe, é de curtíssimo prazo. Ganhar o próximo jogo vale mais do que desenvolver um time competitivo a médio e longo prazo.

Há também a ilusão de que todo técnico estrangeiro é solução, enquanto muitos brasileiros vivem em um limbo de clubes menores, girando entre Série B e C. Não se investe em formação, não se cobra capacitação, mas se idolatra quem chega de fora com um PowerPoint em inglês e conceitos que, muitas vezes, já são discutidos por aqui há anos — mas com menos glamour.

E quando um treinador tenta implantar ideias novas, como Fernando Diniz,  rapidamente é alvo de campanhas de desestabilização. A crítica muitas vezes não é técnica — é política, emocional ou baseada em folclore.

Hoje, poucos treinadores têm tempo para formar uma equipe com identidade. Abel Ferreira, exceção à regra, só permaneceu porque entregou títulos desde o início. Se tivesse tropeçado em 2020, talvez já estivesse de volta à Europa. Rogério Ceni, mesmo campeão, foi contestado. Renato Gaúcho, ao menor tropeço, vira personagem de meme. E a cultura continua: perdeu três jogos? Demite. Ganhou dois? É gênio.

A discussão, portanto, não é apenas sobre nomes — é sobre estrutura. O Brasil precisa decidir se quer um futebol de resultados pontuais ou um futebol competitivo, que respeite o processo e permita ao técnico ser mais do que um bombeiro de luxo.

Porque enquanto tratarmos treinador como peça descartável, continuaremos empilhando decepções, trocas e desculpas.

*Rodrigo Panichelli é colcaborador d’O Defensor.