Por: Rodrigo Segantini*
Se Taquaritinga fosse um set de filmagem, os últimos capítulos dariam um roteiro e tanto de drama político. Só que a ficção, infelizmente, parece estar perigosamente próxima da realidade — ou pelo menos é o que o Ministério Público sugere em sua mais recente atuação judicial.
Tudo começou com uma ação civil pública cuja peça inaugural não economiza nas entrelinhas. A Promotoria de Justiça pleiteou — e o juiz deferiu — uma série de medidas cautelares robustas, como a suspensão imediata de contratos públicos e a indisponibilidade de bens de ex-gestores e empresários locais, incluindo o ex-prefeito Vanderlei Mársico. O valor bloqueado? R$ 38,3 milhões — o suficiente para financiar várias temporadas de uma minissérie, com efeitos especiais contábeis inclusos.
A decisão judicial, longe de qualquer ficção, baseou-se em indícios de movimentações financeiras consideradas “atípicas” e que poderiam indicar, segundo a inicial do processo, uma tentativa de esvaziamento patrimonial. Transferências vultosas para familiares foram tidas como relevantes o bastante para justificar o congelamento de bens — incluindo veículos, imóveis e até pedras preciosas — antes mesmo de qualquer medida sobre contas bancárias. Uma ordem com ares de requinte jurídico que deixaria qualquer roteirista emocionado.
A liminar foi cuidadosamente fundamentada na lei. Na linguagem da dramaturgia legal, isso significa que o juiz não está escrevendo um capítulo de novela, mas respondendo a um enredo com riscos concretos ao erário público. Contudo, como todo bom roteirista sabe, é preciso dosar o ritmo: se for ágil demais, pode deixar pontas soltas; se lento demais, corre o risco de se arrastar e perder a audiência — ou, neste caso, o interesse da sociedade. Cabe ao magistrado esse equilíbrio, diferentemente do que se exige de um autor de ficção.
Os contratos em questão, celebrados com empresas locais, foram todos suspensos. Uma reviravolta que muda a dinâmica da gestão pública e lança uma nuvem densa de interrogações sobre como e por que tais parcerias foram firmadas. Tudo, evidentemente, ainda sob o olhar das possibilidades: se houver provas contundentes, se as acusações forem confirmadas, se os indícios evoluírem para condenações… Por ora, o enredo segue em ritmo de suspense jurídico, com o Judiciário no papel de protagonista cauteloso.
Curiosamente — ou talvez previsivelmente — os réus ainda não se manifestaram sobre as decisões. Um silêncio digno de personagens que aguardam a próxima fala do roteirista, enquanto os autos seguem ganhando páginas e especulações. No fim das contas, Taquaritinga parece viver um daqueles episódios em que a política se mistura com a justiça, e o povo, como um coadjuvante quase figurante, apenas assiste ao desenrolar da encenação, esperando que a temporada termine com alguma moral da história. Por enquanto, só resta aguardar os próximos capítulos — que, tudo indica, não serão curtos nem leves.
Prazer enorme voltar a marcar presença em O Defensor, veículo pelo qual tenho profundo afeto: desde os tempos do Paulinho Delgado, passando pelo meu irmão Marcos Bonilla, até hoje com o amigo Gabriel Bagliotti — três editorias pelas quais tive o privilégio de colaborar. Meu carinho por O Defensor só não é maior do que o que tenho por Taquaritinga. O que, convenhamos, já diz muito sobre o tamanho dos dois. É muito bom estar de volta!



