Festejar o passado é sustentar o presente: o que as festas juninas ainda têm a nos ensinar
Quando chega o mês de junho, o Brasil se transforma em cores, sons e sabores que remetem ao mais profundo sentido de identidade coletiva: as festas de São João, um dos maiores símbolos do nosso patrimônio cultural imaterial. Muito além de bandeirinhas, quadrilhas e canjica, a celebração junina carrega o DNA de um povo que, mesmo diante das pressões da modernidade e da homogeneização cultural, insiste — e com razão — em celebrar suas raízes.
O São João é festa de fé e de chão. Traz à tona não apenas os elementos da religiosidade popular em torno de santos como São João, Santo Antônio e São Pedro, mas também exalta o campo, a vida simples, o trabalho da terra e a alegria genuína dos encontros comunitários. É, por essência, uma festa de pertencimento. E, no Brasil profundo, especialmente no Nordeste, representa o que há de mais vivo na resistência cultural de um povo historicamente negligenciado.
No entanto, ao mesmo tempo que encanta, o São João também levanta questões urgentes. Em muitas regiões, a festa perdeu espaço para grandes eventos comerciais, shows de artistas nacionais com cachês milionários e estruturas patrocinadas por conglomerados. Não se trata de demonizar a profissionalização do entretenimento, mas sim de refletir: até que ponto estamos preservando a essência das tradições juninas? Onde estão os grupos de quadrilha, as bandas de forró pé de serra, os sanfoneiros e os contadores de histórias que, por gerações, foram os verdadeiros protagonistas do São João?
Ainda assim, há boas notícias. Em muitas cidades do interior paulista — como Taquaritinga, por exemplo — observa-se um movimento de resgate do São João tradicional, com festas organizadas por escolas, associações culturais e igrejas, onde o foco volta a ser o coletivo, a simplicidade e o fortalecimento da identidade regional. Crianças aprendem sobre os santos juninos na sala de aula, jovens participam de danças de quadrilha e famílias inteiras se reúnem para construir, com as próprias mãos, os cenários das festividades. Este é o São João que precisamos valorizar: o que fortalece laços, promove inclusão e educa pela convivência.
Mais que festa, o São João é memória ativa. É oportunidade de romper com o individualismo e, ao menos por alguns dias, reencontrar o sentido de comunidade. É pedagogia de afeto e resistência contra o esquecimento. É uma forma de celebrar o que somos, enquanto projetamos o que desejamos ser como sociedade.
Preservar o São João não é apenas uma escolha estética ou folclórica. É um ato político e cultural de reconhecimento da diversidade, da sabedoria popular e da necessidade urgente de reconectar o urbano ao rural, o passado ao presente, o local ao universal. Que não deixemos apagar as fogueiras que ainda aquecem a alma coletiva de um Brasil que canta, dança e resiste — com alegria.



