quarta-feira, 22 abril, 2026

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Nossa Palavra – Doação de órgãos infantis

Entre avanços técnicos e sensibilização social, o país amplia debates sobre os limites e a importância da doação pediátrica

No Brasil de 2025, a doação de órgãos infantis continua sendo um tema sensível, permeado por questões éticas, legais e emocionais. Ao mesmo tempo em que a medicina avança na realização de transplantes, a sociedade ainda enfrenta desafios importantes para garantir que esses procedimentos ocorram dentro de critérios seguros, transparentes e plenamente humanizados.

A legislação brasileira é clara quanto ao procedimento: a doação de órgãos de crianças e adolescentes só pode ocorrer mediante autorização expressa dos pais ou responsáveis legais. Em caso de doações em vida — como a de medula óssea — há exigência de compatibilidade imunológica comprovada e, sobretudo, a garantia de que o ato não comprometerá a saúde do doador. Quando se trata de órgãos sólidos, como coração, rins, fígado ou pulmões, o processo só é viabilizado após a constatação de morte encefálica, realizada de acordo com protocolos rigorosos estabelecidos pelo Conselho Federal de Medicina.

A primeira doação registrada no Hospital Estadual Infantil e Maternidade Alzir Bernardino Alves (Himaba) neste ano simboliza um marco importante não apenas para a instituição, mas também para o sistrema público de saúde. Trata-se de um gesto de imenso altruísmo por parte de familiares que, mesmo em meio à dor da perda, optaram por salvar outras vidas. É uma decisão profundamente pessoal, que exige acolhimento e informação por parte das equipes médicas e psicossociais.

A atuação das Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) tem sido fundamental nesse contexto. São elas que identificam potenciais doadores, asseguram o cumprimento dos critérios legais e auxiliam na comunicação com os familiares, um processo que precisa ser conduzido com empatia e clareza. As equipes dessas comissões exercem, silenciosamente, um papel crucial na construção de uma cultura mais consciente sobre a doação de órgãos.

Em paralelo, os números mostram avanços que merecem ser reconhecidos. O estado de São Paulo, por exemplo, registrou aumento significativo nos transplantes realizados em 2025, com destaque para a elevação no número de transplantes de pâncreas. No Paraná, os dados de janeiro apontam para o maior número de transplantes dos últimos 14 anos no período, resultado de investimentos em infraestrutura, capacitação de equipes e campanhas de conscientização.

Além disso, outras regiões têm dado passos importantes. O Hospital Regional de São José dos Campos e o Hospital Augusto de Oliveira Camargo (HAOC) também realizaram suas primeiras captações do ano, reforçando que a mobilização nacional está em curso. Cada órgão doado representa a possibilidade concreta de transformar o destino de até dez pessoas — adultos e crianças — que aguardam com ansiedade e esperança por um transplante.

Um aspecto que ainda exige atenção é a prioridade das crianças e adolescentes na fila de espera. Embora essa preferência exista em casos específicos, especialmente quando o doador tem a mesma faixa etária, ainda é necessário fortalecer políticas que garantam equidade e eficiência na destinação dos órgãos, considerando não apenas critérios clínicos, mas também o impacto social da espera prolongada.

Por fim, cabe refletir sobre o papel da sociedade nesse processo. Informar-se, debater e, acima de tudo, conversar em família sobre a doação de órgãos são atitudes que salvam vidas. É necessário desmistificar o tema, abordá-lo com seriedade e responsabilidade, evitando julgamentos simplistas e compreendendo o profundo ato de humanidade que envolve a decisão de doar.

O avanço técnico da medicina brasileira precisa caminhar lado a lado com a evolução ética e social. Em 2025, a doação de órgãos infantis segue como um campo onde o amor ao próximo, o compromisso com a vida e o respeito absoluto aos direitos das famílias se encontram para escrever histórias de esperança.