Por: Gustavo Ascencio*
Segunda-feira passada ganhei um livro, ótimo jeito de se começar a semana. O misterioso caso de Styles, de Agatha Christie, uma edição em capa dura do Círculo do Livro. Já saía do estacionamento, cabeça baixa, passos que gostariam de dar meia volta e voltar a dormir, quando uma colega de trabalho, ainda meio corpo dentro de seu carro, gritou que a esperasse. Confesso que resmunguei.
Tenho um presente para você.
Presente?
Presente.
E me deu o livro. Não sei agradecer, por default sempre acredito devolver menos gratidão do que deveria. Luto contra as forças que estranhamente me impelem a tornar aquela pessoa o centro de minha vida, independente do valor, importância ou intenção do que me é presenteado — de uma bala de maçã verde ao sopro da vida. Mas estou melhorando, agradeci duas ou três vezes, dei um abraço (o Halley de minhas interações sociais) e subi para a repartição.
Volto a este tópico hoje talvez para entender o que me ocorre. Há um certo pessimismo nisso tudo. Nunca espero que algo de bom vá acontecer comigo, ainda mais às oito horas da manhã de uma segunda-feira rumo ao trabalho. Tal fado sombrio é tão forte em minha vida que tendo a nutrir pelos meus heróis, estes sem saber que o são e que rompem uma sagrada maldição, platônica gratidão.
No final das contas o desastre é grande.
Coloco seres falhos em pedestais mesmo que momentâneos ao mesmo tempo em que imputo-me um esforço hercúleo e eterno. Chamem-me de Sísifo, subo e desço, subo e desço minha montanha agradecendo a todos os benfeitores de minha existência.
Obrigado por me parir nesta terra.
Obrigado por me pôr um teto sobre a cabeça e comida no estômago.
Obrigado por me amar incondicionalmente.
Obrigado por me ajudar no trabalho de química.
Obrigado pelo prêmio de aluno destaque.
Obrigado por me aceitarem nesta universidade.
Obrigado pela oportunidade de trabalho.
Obrigado por entenderem minha dor e sofrimento.
Obrigado por sentirem minha falta.
Subo e desço. Subo e desço.
Porém, como disse, ando fazendo progressos. Faça o teste, me dê um presente inusitado e verá. Agradecerei diminutamente e pronto. Estará morto para mim. Acabado e enterrado! Usufruirei de todas as benéficas do que me for concedido sem um pingo de gratidão sequer. Como se fosse um fruto de meu mérito, único e intransferível — como o meu CPF.
Minha analista costuma dizer, não com essas palavras, que sou vicioso, vivo de um extremo a outro (subo e desço, subo e desço). Agradeço-lhe também por me esclarecer isso. Mas agradeço mais ainda a você, leitor, por chegar até aqui: obrigado, oh!, muito obrigado, de verdade mesmo, sou grato muito grato…



