sexta-feira, 17 abril, 2026

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Crônica: Machado escreveu para todos

Por: Sérgio Sant’Anna*

Na esquina do tempo, onde o passado cochicha com o presente, encontro-me com Machado de Assis, observando o vai-e-vem apressado das notificações digitais. Penso que, se vivesse hoje, talvez trocasse a pena por um teclado — mas jamais perderia a ironia. Seus contos, tão antigos quanto atuais, parecem ter sido escritos para este exato momento em que o ser humano continua, obstinadamente, sendo humano.

Recordo-me de O Espelho, em que a identidade se divide entre o que somos e o que aparentamos ser. Hoje, nossos espelhos são as redes sociais: perfis cuidadosamente editados, filtros que alisam não apenas a pele, mas também as contradições. Como o alferes Jacobina, muitos só existem plenamente quando refletem o olhar do outro — ou, pior, o número de curtidas.

Já em A Cartomante, a crença no destino cego conduz personagens à tragédia. Mudaram-se os tempos, mas não os hábitos: trocamos a cartomante pelos algoritmos, pelos “especialistas” de ocasião, pelos vídeos que prometem prever o futuro em três minutos. Continuamos sedentos por certezas, mesmo sabendo, no fundo, que o acaso ainda dita as regras.

Em Missa do Galo, o não dito fala mais alto que qualquer palavra. No silêncio carregado de tensão, revela-se o jogo sutil dos desejos humanos. Hoje, os silêncios são outros: mensagens visualizadas e não respondidas, conversas interrompidas por distrações digitais. O constrangimento permanece — apenas ganhou novos formatos.

Penso também em O Alienista, onde a linha entre sanidade e loucura se dissolve sob o olhar arbitrário da ciência. Em tempos de excesso de informações e opiniões, quem define o que é racional? Entre fake news e certezas inflamadas, talvez Simão Bacamarte encontrasse material infinito para suas internações — ou talvez acabasse internando a si mesmo, como fez.

Em Teoria do Medalhão, o conselho ao jovem para que se torne um homem de aparências ecoa com precisão inquietante. Hoje, o medalhão não precisa discursar: basta viralizar. A superficialidade, antes ensinada como estratégia social, tornou-se quase uma exigência para quem deseja visibilidade.

E como esquecer Pai contra Mãe, que expõe a brutalidade das estruturas sociais? Se antes a violência era escancarada, hoje ela se reinventa em desigualdades persistentes, em exclusões silenciosas. Mudam-se os instrumentos, mas a lógica cruel ainda resiste, lembrando-nos de que o progresso nem sempre é sinônimo de justiça.

Há ainda Uns Braços, onde o desejo juvenil se constrói na observação quase obsessiva de um detalhe. Em tempos de hiperexposição, o mistério parece rarear, mas o desejo continua a se alimentar de fragmentos — agora, fotos recortadas, stories efêmeros, instantes que desaparecem em 24 horas.

E em O Enfermeiro, a culpa e a justificativa moral se entrelaçam de forma perturbadora. Hoje, quantas vezes racionalizamos nossas pequenas crueldades diárias? Quantas vezes, protegidos pela distância das telas, suavizamos o peso de nossas ações?

No fim, percebo que Machado não escreveu apenas sobre seu século, mas sobre todos. Seus personagens continuam vivos em nós, adaptados aos novos cenários, mas movidos pelas mesmas inquietações. Talvez a tecnologia tenha avançado, mas a alma humana segue, como sempre, sendo o maior enigma — e também a maior matéria-prima da literatura.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.