terça-feira, 26 maio, 2026

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Crônica: Indefinições oníricas

Por: Sérgio Sant’Anna*

Ato I:

Vejo-me com as características do positivas de meu pai… Aquelas bondosas, afetuosas, as que não desejei. Não sou capaz de extirpá-las, parecem indestrutíveis. Talvez já tenha nascido comigo e nem percebi, permanecerão até os últimos dias. Parece esta uma batalha perdida. Moinhos de vento não podem ser derrotados, Dom! Há  pedaço paterno em mim…

Ato II:

Os meus olhos queimam, minhas pupilas parecem navegar… mas cá dentro canta o samba maroto, aquele que quando era garoto me dava elementos para animar… Quero encontrar o sossego, porém minha memória parece não deixar…

Ato III:

O apitar da leiteira era moderno, admirava ao leite subindo pelas paredes daquele velho canecão que a minha avó utilizava. O cheiro gostoso e o amargor de uma vida que não deveria ter passado…

Ato IV:

O pegar pelas mãos e nos conduzir ao objetivo é o primeiro gesto de um pai. Levar à escola pela primeira vez, atravessar à rua rumo a uma banca de gibis ou mesmo desfilar pelos salões das matinês carnavalescas ao som de Gal Costa… Destinar-nos à compra do primeiro “Laka” ou mesmo o nosso primeiro espetáculo circense, no entanto fica o milho cozido que ele me levou a experimentar… dos grãos ainda indefinidos sinto a liberdade de poder caminhar, encorajado pelas mãos firmes de um pai.

Ato V:

É o cheiro do feijão carioca rompendo a estrutura metálica da panela de pressão,  logo em seguida passando pelo processo de tempero… eram as mãos singelas, porém envelhecidas pelo labor de décadas trabalhando para nosso sustento, minha mãe sempre foi fada. À sua maneira, todavia nos encantava com seu tempero. Dói meu estômago só de pensar na ausência daquela cozinha que sempre me entorpeceu.

Memórias,  registros, alma enfeitiçada, pares, exemplos e saudades…

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.