Por: Gustavo Antonio Ascencio*
Dessa vez serei breve, o título é a mais pura verdade e a maior parte desse texto não será minha, ao menos não propriamente. Meu lugar para hoje e os próximos dias, posso vaticinar com certa seguridade, é a latrina. Mas, para que não fiquem sem notícias, redigo aqui ipsis litteris uma crônica por mim escrita há alguns anos, quando ainda estava estudando Letras na Universidade de São Paulo. Fiquem com essa versão minha, mais jovem e… bem, tirem suas próprias conclusões. Acredito que seu título seria “Sêneca era pixador” ou algo do gênero. Até mais.
Aqui no Rio Pequeno existem muitos pixadores, cada qual com sua tag. É praticamente impossível encontrar uma parede em branco. Os traços, democraticamente, tomam todos, do Bar & Lanches ao Banco do Brasil.
Dia desses estava esperando o demorado 7725-10 Terminal Lapa, que a essa altura é quase uma lenda urbana dos itinerários paulistanos, e, ali no ponto mesmo, deparei-me rapidamente com uma nova tag, “SENECA”.
Logo pensei, ah sim!, ele está se referindo àquele Sêneca, filósofo romano que, por coincidência, estou estudando um texto ou outro na faculdade nesse semestre.
Achei este um conceito super interessante e passei a pensar a respeito enquanto o Terminal Lapa não vinha, afinal, tinha bastante tempo. Sêneca era um estóico, seguindo as leis da natureza em busca da razão universal, acreditava que a vida bem vivida deveria ser aproveitada em seus milésimos de segundos e recusava-se a perder seu tempo com coisas fúteis. Se você trombasse esse cara em Roma e pedisse a ele um minutinho para jogar uma conversa fora, provável que seria sumariamente ignorado e deixado falando sozinho.
Tentava, então, relacionar esse pouco conhecimento que tinha sobre o assunto com o tag. Talvez Sêneca estivesse em uma ordem natural do mundo do pixo, a qual todos deveriam seguir para alcançar a verdadeira felicidade; talvez fosse o fato de que os segundos são preciosos aos pixadores, neles viveriam o agora com toda a adrenalina de lançar os seus traços em uma parede sem serem vistos ou identificados; talvez, por meio do pixo, o autor quisesse demonstrar que sua vida seria devidamente aproveitada, como os sábios, talvez…
Entre meus pensamentos, o 7725 chegou e fui com ele.
Horas mais tarde, algumas delas perdidas em futilidades (assumo), desço no ponto oposto, do outro lado da rua, e, atravessando-a, passo mais uma vez pela tag avistada antes. Porém, dessa vez, detenho-me um pouco mais nos traços.
O formato do primeiro “E” não tem nada a ver com o segundo, né? Ele não está mais fechado do que deveria, não? Penso. Olho com mais atenção ainda. Sim, ele está bastante fechado… será que isso é um “E” mesmo? Indago a mim mesmo. Dou meio passo para trás em minha ignorância e contemplo o todo para uma releitura da tag. É aí que a leio corretamente: “SONECA”.
…
Pois bem, “SONECA”, não “SENECA”. Na linguística a gente chama isso de par análogo, quando duas palavras se diferenciam com a mudança de dois fonemas distintos. Nesse caso as duas primeiras vogais: /o/ e /e/, nas sílabas iniciais das duas palavras, e /ɛ/ e /e/, nas seguintes de cada uma delas.
Fui enganado por um par análogo (e pela minha ignorância dessa expressão artística, verdade). Lá se foram todas as minhas teorias do que poderia estar por detrás daquela tag, das motivações que aquele pixador romano que a idealizara pudesse ter. Na realidade, parando para pensar, Sêneca, com todo esse papo de aproveitar a vida, devia repudiar o sono. Dizem as más línguas que o cara dormia no chão, ou seja, o próprio inimigo da soneca!
Enfim, subi a rua de casa dando risada do meu pedantismo, maltido academicista. Estava errado o tempo todo e bem feito pra mim.
Um salve pro meu mano SONECA.



