terça-feira, 26 maio, 2026

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Crônica: Entre intervalos, retomadas, euforia e reflexão: 2026 começa agora, mas o que sustenta os seres humanos são os pequenos gestos

“O brasileiro só é patriota em Copa do Mundo. No resto do tempo, é feriado.” (Nélson Rodrigues – dramaturgo)

Por: Sérgio Sant’Anna*

No Brasil, o ano nunca começa em janeiro, embora o primeiro mês deste ano trouxe a vagarosidade através de notícias tristes e impactantes; ele ensaia, espreguiça-se, faz promessas à meia-noite do dia 31 e, ainda assim, permanece em suspenso até que os últimos confetes do Carnaval sejam varridos das calçadas. Só então, quando o brilho das fantasias cede lugar ao uniforme da rotina, é que o país parece, de fato, acordar. As agendas se abrem com seriedade renovada, os cadernos ganham folhas limpas e as metas, antes abafadas pelo som dos tamborins, passam a exigir cumprimento. É como se o calendário nacional obedecesse a um compasso próprio, no qual a quarta-feira de cinzas representa não apenas o fim da folia, mas o verdadeiro início do ano.

E, mal se iniciam os compromissos, já se avista no horizonte a próxima pausa: a “Sexta-Feira Santa”, em 3 de abril, convidando à introspecção. Poucos dias depois, em 21 de abril, o país recorda Tiradentes, mártir da Inconfidência, e aproveita, quando possível, para emendar o descanso. O trabalhador brasileiro, atento às brechas do calendário, aprende a arte quase científica de calcular feriados prolongados, equilibrando produtividade e suspiros de lazer. Assim, o ano caminha entre planilhas e pequenas fugas, entre boletos e viagens curtas para rever o mar ou a família.

Maio chega com o “Dia do Trabalhador”, em seu primeiro dia, trazendo consigo discursos sobre direitos, conquistas e desafios persistentes. Em setembro, o “Sete de Setembro” reacende bandeiras e debates sobre os rumos da nação. Outubro reserva o “Dia de Nossa Senhora Aparecida”, em 12 de outubro, padroeira do Brasil, ocasião em que fé e identidade nacional se entrelaçam. Novembro apresenta “Finados”, no dia 2, evocando memórias e silêncios, e, mais adiante, a “Proclamação da República”, em 15 de novembro, lembrando que a história política do país é feita de rupturas e recomeços. E, quando dezembro se aproxima com o “Natal”, o ciclo parece pronto para reiniciar, outra vez à espera do Carnaval seguinte.

Entretanto, 2026 não será um ano qualquer. Entre um feriado e outro, os olhares do mundo se voltarão para a Copa do Mundo, que mobilizará corações, empresas, escolas e até repartições públicas. O futebol, linguagem comum de norte a sul, transformará horários e humores; haverá dias em que o expediente será medido pelo apito inicial e pela tensão dos pênaltis. Nas ruas, camisas verde-amarelas disputarão espaço com a ansiedade cotidiana, e cada vitória terá gosto de redenção coletiva, ainda que temporária.

Como se não bastasse a emoção esportiva, o calendário ainda trará as eleições gerais de 2026, quando brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. O debate político, já latente, ganhará intensidade; promessas circularão com a mesma velocidade das notícias nas redes sociais. Entre esperanças e desconfianças, o país exercitará, mais uma vez, o direito e o dever do voto, reafirmando que a democracia, apesar de suas imperfeições, é construção diária e compartilhada.

Assim, o ano que começa depois do Carnaval seguirá seu curso entre feriados estrategicamente aguardados, gols celebrados em uníssono e decisões tomadas nas urnas. O Brasil, com sua capacidade singular de alternar festa e seriedade, mostrará que vive de intervalos e de retomadas, de euforia e de reflexão. E, quando dezembro finalmente se despedir, talvez descubramos que, apesar de todos os acontecimentos grandiosos, foram os pequenos gestos cotidianos — o café apressado, o abraço no reencontro, a conversa na calçada — que verdadeiramente sustentaram 2026 até o próximo recomeço.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.