quarta-feira, 19 agosto, 2026
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Crônica: Entre a balança e a saúde

O uso indiscriminado de medicamentos para emagrecer e os desafios da Redação do ENEM

Por: Sérgio Sant’Anna*

Em uma sociedade na qual a aparência frequentemente se transforma em cartão de visitas, emagrecer deixou de ser apenas uma questão relacionada à saúde e passou, muitas vezes, a representar uma exigência social. Nas redes sociais, corpos magros são associados ao sucesso, à beleza, à disciplina e até à felicidade. Nesse cenário, medicamentos destinados ao tratamento da obesidade e de outras condições clínicas passaram a ser vistos, perigosamente, como atalhos para alcançar um determinado padrão estético. O problema surge quando o desejo de emagrecer ultrapassa os limites da orientação profissional e transforma o medicamento em produto de consumo.

A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras”, especialmente os medicamentos agonistas do GLP-1, intensificou esse fenômeno. Embora possam ter indicação médica para determinados pacientes, esses fármacos não devem ser confundidos com produtos cosméticos ou soluções instantâneas. Em 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou que medicamentos dessa classe, como semaglutida, liraglutida e tirzepatida, passassem a ter controle mais rigoroso, com retenção da receita nas farmácias. A medida foi motivada, entre outros fatores, pelo número elevado de eventos adversos relacionados ao uso fora das indicações aprovadas.

A situação tornou-se ainda mais preocupante em 2026. Em fevereiro, a Anvisa publicou alerta sobre o uso indevido dos agonistas de GLP-1 e destacou o risco de pancreatite aguda. Segundo a Agência, entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, foram registradas no Brasil 145 notificações de suspeitas de eventos adversos e seis suspeitas de casos com desfecho de óbito. O dado não significa que todos esses casos tenham sido necessariamente provocados pelos medicamentos, mas evidencia a necessidade de farmacovigilância e acompanhamento profissional.

Nesse contexto, a reflexão do filósofo grego Sócrates — tradicionalmente associada à ideia de conhecer a si mesmo — ganha uma dimensão contemporânea. Conhecer o próprio corpo significa compreender seus limites, necessidades e particularidades, e não simplesmente submetê-lo às exigências de uma sociedade obcecada pela aparência. O corpo humano não é uma fotografia publicada nas redes sociais; é uma estrutura complexa, submetida a fatores genéticos, metabólicos, psicológicos, sociais e ambientais.

Entretanto, a cultura contemporânea parece ter dificuldade para aceitar essa complexidade. A velocidade das redes sociais favorece soluções rápidas: determinada celebridade emagrece, determinado influenciador recomenda um medicamento e, imediatamente, milhares de pessoas passam a desejar o mesmo resultado. O filósofo Byung-Chul Han, ao analisar a sociedade do desempenho, demonstra como o indivíduo contemporâneo é pressionado a transformar a própria existência em projeto permanente de otimização. O corpo, nesse contexto, também se converte em objeto de cobrança: deve ser mais magro, mais bonito, mais jovem e mais produtivo.

A literatura brasileira já havia percebido, muito antes da existência das redes sociais, a maneira como a sociedade julga os indivíduos pela aparência. Em O Cortiço, Aluísio Azevedo apresenta personagens submetidos às forças sociais, econômicas e ambientais de seu tempo. A obra naturalista ajuda a compreender que o indivíduo não existe isoladamente: suas escolhas são influenciadas pelo meio. Da mesma forma, o comportamento alimentar e a relação com o próprio corpo não podem ser explicados apenas pela suposta “falta de força de vontade” de uma pessoa.

Também Machado de Assis, com sua ironia característica, poderia nos ajudar a desconfiar das aparências. Em uma sociedade na qual parecer saudável pode ser mais importante do que efetivamente estar saudável, a imagem transforma-se em uma espécie de máscara. O problema é que medicamentos não são acessórios. Não se trata de escolher uma roupa ou um filtro para uma fotografia: trata-se de substâncias capazes de provocar efeitos fisiológicos e reações adversas.

A música popular brasileira, por sua vez, oferece outra chave de interpretação. Quando Caetano Veloso canta que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, em Dom de Iludir, a canção pode ser aproximada da discussão sobre a aceitação da individualidade. O verso, tomado como repertório sociocultural, permite questionar a tentativa de enquadrar todos os corpos em um mesmo modelo estético. Afinal, aquilo que parece ser apenas uma busca pela beleza pode esconder sofrimento, insegurança e uma profunda insatisfação consigo mesmo.

É importante, contudo, evitar uma interpretação simplista. O problema não está nos medicamentos utilizados corretamente e com indicação profissional. Para determinadas pessoas, o tratamento farmacológico pode ser importante e necessário. A questão social reside no uso indiscriminado, especialmente quando a decisão nasce de propagandas, depoimentos de celebridades, recomendações de amigos ou conteúdos publicados nas redes sociais, sem avaliação médica individualizada. A própria Anvisa ressalta que o uso sem avaliação, prescrição e acompanhamento de profissionais habilitados pode ampliar riscos e danos à saúde.

Nesse ponto, o pensamento do médico e filósofo Georges Canguilhem torna-se pertinente. Ao discutir os conceitos de normal e patológico, o autor demonstra que a saúde não pode ser reduzida a uma simples adequação a padrões externos. Em outras palavras, estar saudável não significa necessariamente possuir determinado peso ou determinada aparência. A medicina deve considerar a singularidade do paciente, sua história e suas condições clínicas, e não transformar um padrão estético em parâmetro universal de normalidade.

O fenômeno também revela uma contradição da modernidade: enquanto a ciência médica desenvolve tratamentos cada vez mais sofisticados, parte da população busca utilizá-los de maneira superficial, como se fossem produtos comuns de consumo. Em agosto de 2025, a própria Anvisa informou ter encontrado, em fiscalizações relacionadas a insumos para manipulação de medicamentos agonistas de GLP-1, situações envolvendo doses superiores às recomendadas em estudos clínicos e associações cuja eficácia e segurança eram consideradas duvidosas.

Assim, a responsabilidade não pode ser atribuída somente ao indivíduo. Há uma dimensão coletiva no problema. As plataformas digitais precisam combater a circulação de informações enganosas; empresas e influenciadores devem ser responsabilizados quando promovem práticas potencialmente perigosas; profissionais da saúde precisam orientar seus pacientes de maneira ética; escolas devem desenvolver educação científica e midiática; e o poder público deve fortalecer ações de fiscalização. Afinal, em uma sociedade marcada pela circulação instantânea de informações, saber interpretar uma postagem pode ser tão importante quanto saber interpretar um texto.

É justamente nesse ponto que o tema dialoga diretamente com a Redação do ENEM. Uma proposta como “Desafios para combater o uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento sem acompanhamento médico no Brasil” permitiria ao candidato discutir saúde pública, indústria cultural, padrões de beleza, influência das redes sociais, responsabilidade individual e coletiva e educação científica. De acordo com a Cartilha do Participante do ENEM, o candidato deve defender um ponto de vista por meio de argumentos consistentes, mobilizando repertório sociocultural pertinente e elaborando uma proposta de intervenção para o problema discutido.

Para construir uma redação de alto nível sobre essa temática, portanto, não basta afirmar que “as pessoas devem consultar um médico”. É necessário explicar por que ocorre o consumo indiscriminado, quais fatores sociais o estimulam, quais consequências podem surgir e como diferentes agentes podem enfrentar o problema. Um bom projeto argumentativo poderia defender, por exemplo, que a combinação entre culto excessivo à aparência e desinformação digital favorece a automedicação. Como repertórios, podem ser articulados Byung-Chul Han e a sociedade do desempenho, Canguilhem e a discussão sobre saúde e normalidade, obras literárias de Machado de Assis ou Aluísio Azevedo e canções da música brasileira.

No fim, a grande questão talvez não seja simplesmente “como emagrecer?”, mas por que uma sociedade passou a acreditar que precisa emagrecer a qualquer custo para ser aceita? Entre a balança e a saúde existe uma pessoa, com história, sentimentos, limites e necessidades próprias. O corpo não deveria ser tratado como inimigo a ser derrotado, nem como vitrine submetida à aprovação coletiva. Como ensinaria a tradição filosófica, cuidar de si exige conhecimento, prudência e responsabilidade. E, quando o assunto é medicamento, essa responsabilidade passa necessariamente pelo diálogo com profissionais habilitados. Em tempos de soluções instantâneas, talvez a verdadeira transformação esteja justamente em recuperar a capacidade de compreender que nem todo caminho rápido conduz a um lugar saudável.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.