Por: Sérgio Sanr’Anna*
Talvez concorde com Graciliano Ramos ao afirmar que para escrever é necessário estar apaixonado. Não esta paixão avassaladora carregada pela primeira impressão, porém aquela que resiste ao tempo, que se atenta a beleza encerrada depois que o tempo esvai-se. Aquele sentimento que perdura frente aos tropeços mundanos, aos esquecimentos corriqueiros ou mesmo ao bafo matinal.
Para escrever faz-se necessário estar envolvido. Até um amor não correspondido. Desses que ainda imagino acontecer com muitos. Alimentamos e ele nos alimenta, motiva-nos, a mim me inspira. Transformo sentimentos em textos, desses que descarregado até mesmo a solidão. Esse vazio não preenchido, que no princípio alegra, todavia com o tempo deixa as lágrimas internas inundarem nosso fígado. Solidão que confundimos com liberdade, porém que não passa de ilusão. Não quero que soe com ecos de um homem separado a procura de seu grande amor, mas daquele que há anos persiste na tarefa de fazer ao outro feliz.
Há aqueles que me disseram que faço muita gente feliz com minha profissão e com esse lado humano, paciente, calmo que possuo até ministrando aulas para o Ensino Fundamental. Confesso que não é uma técnica, no entanto faz parte da minha personalidade. Sou assim. Dia e noite. Todos os dias. E não é só isso. Com a Análise do Discurso percebi que o ambiente e nosso enunciatário fazem parte desse contexto. Portanto, lutar para escrever, assim como ser feliz faz-se com muito labor. É luta sim. Tem que cavoucar. Há que lapidar. Tem que ser ourives. Lidar com as piores situações é fato para se projetar ao Monte da Felicidade. Assim se faz com a escrita.
Certa vez, quando me separei, ainda em Porto Alegre, um amigo escritor me apoiou dizendo que escrevesse aquela dor, que derramasse sobre o papel a tinta da despedida. Há algumas semanas ele perdeu a mãe numa sexta-feira, mandei meus sentimentos pelas redes sociais, pois estamos distantes cerca de 400 quilômetros; no velório da mãe o pai teve um mal-súbito e faleceu. Enterram-no no domingo. Tristíssimo esse episódio. Virou texto depois do luto recomendado por Freud. Amor, sim, acampado na tristeza que sempre nos desafiará. Sozinho escrevemos, porém há necessidade de alguém quem possa nos acompanhar, mesmo que seja ficcional. Aí requer um outro texto…



