domingo, 21 junho, 2026

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Crônica: A culpa é do professor: o termômetro pela febre

Por:  Sérgio Sant’Anna*

Dizem, com a facilidade cruel das generalizações, que a escola fracassa porque o professor falha. É uma sentença dita com a leveza de quem nunca carregou um diário de classe cheio de ausências, lacunas e histórias não contadas. Ao longo dos anos, aprendi que culpar o professor é como culpar o termômetro pela febre: há conforto na acusação, mas nenhuma resolução no gesto.

Recordo-me de Paulo Freire, que via a educação como um ato de amor e coragem. Amor, porque exige entrega; coragem, porque enfrenta estruturas que insistem em não mudar. No entanto, quando os índices caem, quando as redações empobrecem e quando a leitura rareia, não se investiga o entorno: responsabiliza-se aquele que, paradoxalmente, menos poder tem de transformar sozinho a engrenagem.

Em Admirável Mundo Novo, a sociedade é moldada para não questionar. Talvez vivamos algo semelhante, ainda que de forma menos explícita: uma cultura que terceiriza culpas e anestesia consciências. O professor, nesse cenário, torna-se bode expiatório ideal — visível o suficiente para ser criticado, invisível demais para ser compreendido.

Hannah Arendt alertava para a crise na educação como reflexo de uma crise maior: a da autoridade e da responsabilidade coletiva. Quando a sociedade abdica de seu papel formador — seja na família, na política ou nos meios de comunicação —, alguém precisa ocupar o lugar do erro. E esse alguém, invariavelmente, veste giz nas mãos e cansaço nos olhos.

Há também o eco de Jean-Jacques Rousseau, que defendia a formação integral do indivíduo, em harmonia com a natureza e com a sociedade. Mas que sociedade é essa que exige resultados sem oferecer condições? Que cobra leitura de quem nunca teve acesso ao livro, que exige escrita de quem não teve voz? Ainda assim, a culpa recai sobre quem tenta ensinar o silêncio a falar.

Em 1984, a manipulação da verdade é ferramenta de poder. No mundo real, talvez não haja um “Grande Irmão” declarado, mas há narrativas que se repetem até parecerem verdades: “o problema é o professor”. E assim, constrói-se uma versão conveniente dos fatos, na qual políticas públicas falhas, desigualdades sociais e negligências históricas desaparecem como se nunca tivessem existido.

Lembro, então, de Anísio Teixeira, que sonhava com uma escola pública democrática e de qualidade. Seu projeto nunca foi individualista; ao contrário, dependia de uma rede de responsabilidades. No entanto, insistimos em reduzir o coletivo ao indivíduo, como se o professor fosse um sistema completo e não apenas uma peça dele.

Nas salas de aula, vejo professores que reinventam o impossível: compram materiais com o próprio salário, escutam dores que não cabem no currículo, ensinam conteúdos enquanto tentam salvar humanidades. Ainda assim, são julgados por métricas frias, por resultados que ignoram contextos. É uma cobrança que desumaniza, que transforma vocação em resistência.

Ao final, resta uma pergunta que ecoa mais do que qualquer resposta: quem educa a sociedade sobre o que é educar? Enquanto não enfrentarmos essa questão, continuaremos a repetir o erro mais cômodo — culpar o professor — e a adiar a única solução possível: assumir, juntos, a responsabilidade que sempre foi coletiva.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.