Por: Lucas Fanelli*
Olá caro leitor, espero que você esteja bem! Acredito que você provavelmente nunca ouviu falar de Shaker Heights. Uma daquelas cidades planejadinhas onde até a rebeldia parece seguir o zoneamento urbano. Lá, a grama é cortada com régua, os filhos tiram notas exemplares e os vizinhos sorriem com o entusiasmo de quem tem algo a esconder. E é justamente por isso que Pequenos Incêndios por Toda Parte, de Celeste Ng, é um livro perigosamente viciante: ele queima devagar, mas quando você percebe, já está em chamas. Eu já abordei um livro dessa mesma escritora em uma coluna anterior e a trago novamente aqui pois a escrita dela e os temas abordados são simplesmente brilhantes!
Celeste Ng teve a audácia de escrever um livro onde nada “explode” de forma hollywoodiana, e ainda assim, você se pega devorando as páginas como quem acompanha uma fofoca de condomínio gourmet. É um daqueles romances em que a tensão é servida em porcelana fina, com colherinhas de prata e um toque de julgamento passivo-agressivo.
Aqui, cada personagem é uma peça cuidadosamente colocada num tabuleiro onde o controle é rei e a liberdade, uma ameaça. Há arte. Há maternidade. Há adolescentes com mais camadas do que uma cebola traumatizada. E há, claro, a sensação incômoda de que você talvez conheça gente muito parecida com os personagens, ou pior, que você seja um deles.
A escrita de Ng tem a elegância de quem sorri enquanto cutuca feridas. Ela não grita. Ela sussurra verdades desconfortáveis enquanto você finge que está tudo bem. Spoilers? Jamais. Mas posso garantir que você vai terminar o livro se perguntando se o certo e o errado são mesmo tão distintos — ou se, às vezes, são só versões bem maquiadas um do outro.
E, claro, seria impossível falar desse livro sem mencionar o elefante na sala, ou melhor, o preconceito no subúrbio. Shaker Heights se orgulha de sua progressividade cuidadosamente embalada para presente, mas basta uma diferença de sotaque, de tom de pele ou de histórico familiar para que o verniz liberal comece a rachar. O racismo e a xenofobia aqui não vestem capuz branco, mas sim blazers bege e sorrisos cordiais. São os “não tenho nada contra, mas…” ditos entre taças de vinho e argumentos que soam razoáveis demais para serem tão absurdos. Ng expõe esse desconforto com a precisão de quem sabe que o verdadeiro problema raramente grita, ele apenas cochicha coisas horríveis quando acha que ninguém está ouvindo.
No fim, Pequenos Incêndios por Toda Parte não tenta te convencer de nada. Ele apenas acende um fósforo e observa. O incêndio? Bom, esse é por sua conta.



