Por: Arthur Micheloni*
Nas últimas décadas, o excesso de peso deixou de ser visto apenas como questão estética para se firmar como uma condição clínica grave, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como doença crônica multifatorial. De acordo com a revista científica The Lancet (2023), pela primeira vez na história, o número de pessoas com sobrepeso e obesidade superou o de indivíduos subnutridos. Isso significa que, embora a fome ainda seja responsável por milhões de mortes anuais, os desfechos relacionados à obesidade já ultrapassam a desnutrição como causa de mortalidade global. Atualmente, estima-se que mais de 1 bilhão de pessoas convivam com obesidade, incluindo adultos, adolescentes e até crianças. No Brasil, a situação também preocupa, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que 57% dos adultos estão acima do peso, e aproximadamente um em cada quatro já apresenta obesidade.
O acúmulo excessivo de gordura corporal não é apenas um marcador físico, mas está fortemente associado a diversas comorbidades. Entre as mais relevantes estão:
- Diabetes tipo 2, fortemente associado à resistência à insulina.
- Hipertensão arterial e doenças cardiovasculares, que aumentam o risco de infarto e acidente vascular cerebral.
- Apneia obstrutiva do sono, com repercussões diretas na qualidade de vida.
- Doenças hepáticas, como a esteatose hepática não alcoólica (gordura no fígado), em crescimento acelerado na população.
- Câncer relacionados ao peso corporal, incluindo mama, cólon e fígado, como evidenciado em estudos do New England Journal of Medicine.
A Federação Mundial de Obesidade projeta que, até 2035, mais da metade da população mundial poderá estar com excesso de peso ou obesa se mudanças expressivas nos hábitos coletivos e individuais não forem implementadas.
É importante entendermos que a obesidade não pode ser reduzida a um simples problema de disciplina pessoal. Trata-se de uma doença crônica que resulta da interação de fatores genéticos, metabólicos, ambientais, emocionais e comportamentais. Dessa forma, soluções rápidas ou dietas radicais não são eficazes a longo prazo. O acompanhamento médico é indispensável, podendo incluir, além da reeducação alimentar e atividade física, o uso de medicamentos modernos já aprovados por agências internacionais. Em casos graves, a cirurgia bariátrica é considerada uma ferramenta terapêutica segura e eficaz.
Embora os avanços médicos ofereçam novas possibilidades de tratamento, a prevenção continua sendo a estratégia mais efetiva contra a obesidade. Existem algumas práticas com eficácia comprovada como alimentação equilibrada, com ênfase em alimentos in natura e menor consumo de ultraprocessados, atividade física regular, somando pelo menos 150 minutos semanais de exercícios de intensidade moderada (conforme recomenda a OMS), sono adequado e controle do estresse, já que fatores emocionais e privação de descanso afetam diretamente o metabolismo e cuidado precoce, evitando que o excesso de peso na infância se perpetue até a vida adulta.
Um alerta global
Segundo o relatório Global Burden of Disease, publicado na The Lancet, a obesidade já figura entre os principais fatores de risco para morte precoce no planeta, superando a desnutrição. A mensagem é inequívoca, combater a obesidade deve ser encarado como prioridade em saúde pública. Isso exige investimento em políticas preventivas, programas de conscientização populacional e acesso universal a estratégias de tratamento.
Cuidar do peso, portanto, não é apenas uma questão de estética, é cuidar da saúde e da longevidade.
* Arthur Micheloni é Fisioterapeuta, Nutricionista e licenciado em Ciências Biológicas. Possui pós-graduação em Osteopatia, Fitoterapia, Ortopedia e Traumatologia, Nutrição no Transtorno do Espectro Autista e Nutrição Esportiva. Atua com abordagem baseada na Medicina Integrativa, unindo ciência e experiência clínica. drarthur@clinicamicheloni.com
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



