quarta-feira, 15 abril, 2026

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Artigo: Tirzepatida não é atalho

O perigo das doses altas sem acompanhamento.

Por: Arthur Micheloni*

A tirzepatida, conhecida comercialmente como Mounjaro, representa um dos maiores avanços recentes no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Os resultados são consistentes, melhora importante do controle glicêmico, redução significativa do peso corporal e impacto positivo sobre marcadores metabólicos. A ciência é clara ao demonstrar sua eficácia.

O problema não está na medicação, está na forma como ela vem sendo utilizada.

Nos últimos meses, observa-se um aumento preocupante no uso indiscriminado da tirzepatida, muitas vezes com escalonamento rápido de dose, foco exclusivo na balança e ausência de acompanhamento médico e nutricional adequado. Esse cenário transforma uma ferramenta terapêutica segura em um risco desnecessário. A utilização, prescrição e comercialização do medicamento por pessoas que não estão aptas à isso (apenas médicos podem prescrever) está causando problemas para muitas pessoas

Os estudos clínicos que validaram a tirzepatida seguiram protocolos rigorosos como início com doses baixas, progressão gradual, monitoramento de efeitos colaterais e acompanhamento contínuo dos pacientes. Náuseas, vômitos, constipação e diarreia são efeitos conhecidos e tendem a ser mais frequentes conforme a dose aumenta. Por isso, o escalonamento é feito de forma lenta e planejada.

Quando a medicação é utilizada em doses mais altas de maneira precoce ou sem critério técnico, os efeitos adversos gastrointestinais se tornam mais intensos. A redução exagerada do apetite pode levar a uma ingestão alimentar muito baixa, muitas vezes insuficiente em proteínas, vitaminas e minerais. E aqui começa um problema silencioso.

O emagrecimento rápido, quando não acompanhado de estratégia nutricional adequada, pode resultar em perda significativa de massa muscular, queda de cabelo, fraqueza, alterações hormonais e deficiência de micronutrientes como ferro, vitamina B12, vitamina D e zinco. Não é a tirzepatida que causa diretamente essas deficiências, mas sim a combinação de baixa ingestão alimentar com ausência de planejamento nutricional.

Além disso, a perda de peso acelerada está associada ao aumento do risco de formação de cálculos biliares. A literatura médica já descreve que qualquer processo de emagrecimento rápido pode favorecer alterações na vesícula biliar. Em alguns casos, isso pode evoluir para inflamações e complicações que nada têm a ver diretamente com a ação do medicamento, mas sim com a forma como o processo foi conduzido.

Outro ponto importante é a preservação da massa magra. Estudos mostram que parte do peso perdido com medicamentos para obesidade inclui tecido muscular. Quando não há estímulo adequado por meio de treinamento de força e ingestão proteica suficiente, a perda muscular pode ser maior do que o desejável. Isso impacta o metabolismo, reduz o gasto energético basal e pode dificultar a manutenção do peso a longo prazo, voltando o peso perdido e causando efeito sanfona. É por isso que falar em “injeção para emagrecer” é simplificar demais um tratamento complexo. A tirzepatida não substitui alimentação equilibrada. Não substitui atividade física. Não substitui acompanhamento profissional.

O protocolo ideal envolve preparo metabólico antes mesmo do início da medicação. Avaliação de exames laboratoriais, correção prévia de deficiências nutricionais, ajuste da ingestão proteica, organização da rotina alimentar e orientação sobre hidratação são etapas fundamentais para que a intervenção seja mais segura e eficaz.

Iniciar com dose baixa e progredir de forma individualizada reduz efeitos colaterais e melhora a adesão. Monitorar a composição corporal e não apenas o peso na balança, ajuda a garantir que a perda seja predominantemente de gordura, preservando o músculo e até evitando uma sarcopenia. Acompanhar exames periódicos permite identificar precocemente qualquer alteração metabólica.

A ciência sustenta a eficácia da tirzepatida. Os estudos clínicos demonstram que, quando utilizada corretamente, ela é segura e apresenta benefícios significativos. Mas nenhum estudo defende uso sem acompanhamento ou escalonamento agressivo com finalidade meramente estética. Medicação não é milagre. É uma ferramenta. E toda ferramenta poderosa exige responsabilidade.

A obesidade é uma doença crônica e multifatorial. Seu tratamento precisa ser estruturado, individualizado e multidisciplinar. Médico e nutricionista devem caminhar juntos nesse processo. O objetivo não é apenas perder peso rapidamente, mas melhorar a saúde metabólica, preservar qualidade de vida e manter resultados a longo prazo.

Em saúde, o caminho mais rápido nem sempre é o mais seguro.

* Arthur Micheloni é Fisioterapeuta, Nutricionista e licenciado em Ciências Biológicas. Possui pós-graduação em Osteopatia, Fitoterapia, Ortopedia e Traumatologia, Nutrição no Transtorno do Espectro Autista e Nutrição Esportiva. Atua com abordagem baseada na Medicina Integrativa, unindo ciência e experiência clínica. drarthur@clinicamicheloni.com

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.