Por: Gustavo Giroto* e Raphael Gibertoni**
O Brasil atravessa um momento de chantagem política explícita. Jair Bolsonaro, mesmo fora do poder, comporta-se como se ainda comandasse os rumos do país. O ex-presidente transforma o sofrimento da população em instrumento de barganha para tentar negociar o que deveria ser inegociável: sua responsabilização criminal.
Em declarações recentes, Bolsonaro sinalizou que o fim das tarifas de importação — como a anunciada pelos Estados Unidos, que chega a 50% — e o alívio econômico ao Brasil estariam, de alguma forma, condicionados à sua impunidade. Em outras palavras: ou o absolvem, ou ele e seu filho Eduardo continuarão alimentando a instabilidade que penaliza milhões de famílias brasileiras.
Essa postura transcende o jogo político — é uma agressão frontal à soberania nacional. A soberania de um país não se mede apenas por suas fronteiras ou seu aparato militar, mas pela capacidade do Estado de decidir por si mesmo, sem se dobrar a interesses privados ou pressões externas. Ao atrelar o futuro econômico do Brasil à sua liberdade pessoal, Bolsonaro promove um sequestro institucional inédito e vergonhoso na história recente.
Mais alarmante ainda é que essa lógica de chantagem encontra eco em figuras como Tarcísio de Freitas, governador do estado mais rico e influente do país. Longe de ser uma alternativa racional ao bolsonarismo, Tarcísio é sua extensão direta. Seu apoio aos tarifaços, às privatizações apressadas e ao desmonte da máquina pública aprofunda a entrega do Brasil a interesses financeiros internacionais.
São Paulo — coração industrial do país — será uma das regiões mais prejudicadas pelas novas tarifas americanas, com impacto direto em setores como aço, alumínio, aviação e agronegócio. No entanto, em vez de liderar uma resposta firme e articulada com outros governadores, Tarcísio escolhe fazer política de palanque. Prefere agradar seu eleitorado ideológico e manter sua imagem de “aliado fiel” ao bolsonarismo e à agenda ultraconservadora global, a defender os trabalhadores e as indústrias que sustentam o estado.
A sociedade brasileira — e, em especial, a paulista — precisa compreender que a luta contra o tarifaço é também uma luta por empregos, por dignidade e por soberania. O país não pode mais ser refém de um ex-presidente que destruiu as instituições democráticas e agora tenta barganhar sua liberdade às custas do sofrimento coletivo. Nem de um governador que, diante de desafios concretos, veste um boné com os dizeres “Make America Great Again” e se curva às insanidades de Trump.
Na outra ponta, o presidente Lula, sem muito esforço, assiste à erosão do bolsonarismo e ensaia uma recuperação política. O desgaste dos adversários e a radicalização do discurso à direita abrem caminho para que Lula, mesmo sob críticas e desafios econômicos, caminhe com força para um novo mandato.
O futuro do Brasil não pode ser decidido por quem jurou fidelidade a outro país — seja nos gestos, nas ideias ou nos interesses



