Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
O Congresso Nacional, fiel ao seu papel de instituição histórica — no sentido arqueológico do termo, algo que parece ter parado no tempo — decidiu mais uma vez que legislar para o país é tarefa secundária. A prioridade, como sempre, é blindar seus próprios integrantes com a discrição de um mordomo inglês: desses que deixam a biblioteca inteira queimar, mas jamais perturbam o patrão no chá das cinco. A aprovação do chamado PL da Dosimetria, que reduz penas de condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro, é só mais um capítulo dessa ópera bufa que já deixou de ser tragicômica e se acomodou confortavelmente no campo puro da vergonha. Em vez de proteger a democracia, nossos deputados preferiram proteger quem tentou quebrá-la — um gesto nobre, se estivéssemos em Versalhes. No Brasil de 2025, soa mais como deboche institucional.
A ironia fina — fina como uma marreta — é que os defensores do projeto tentam vender a medida como um ato de “justiça”. Mas basta um mínimo de senso crítico, ou de memória recente, para perceber que o PL é, na verdade, um programa de redução de danos para aliados políticos. A grande locomotiva da autopreservação. E o Partido Novo, que gosta de se apresentar como a fintech da política, guardião da ética e da gestão eficiente, resolveu terceirizar sua moralidade: ficou em silêncio. Não por cautela — por conveniência. Silêncio, no Novo, virou modelo de compliance.
O espetáculo escalou para o surreal quando a Câmara decidiu manter o mandato de Carla Zambelli — condenada, presa no exterior, e sem qualquer condição de exercer a função. Ainda assim, tratada com a reverência típica de quem teme desagradar o vento ideológico que sopra na bancada. Se fosse uma funcionária pública comum, já teria sido exonerada, processada e substituída. Mas como é deputada, e do partido certo, vale tudo. Inclusive fingir que mandato exercido da prisão é compatível com a Constituição — essa senhora tão citada e tão pouco lida.
Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro segue como deputado da mesma forma que um cometa segue iluminando o céu: aparece raramente, causa algum espanto, mas não serve para grande coisa. Há quem diga que ausência também é forma de presença. No Congresso, tudo indica que é forma de mandato.
Resta ao país assistir a esse teatro de papelão, onde moralidade é peça de cenografia, constitucionalidade é acessório e coerência virou artigo de luxo. O Parlamento poderia ter reafirmado seu compromisso com o Estado de Direito; reafirmou seu compromisso consigo mesmo. E quando uma Casa Legislativa se dedica mais à própria sobrevivência do que ao país, a democracia permanece de pé — mas só porque ainda não inventaram o PL para derrubá-la.
Se o objetivo era surpreender, missão cumprida. A política brasileira continua superando a vergonha em velocidade compatível com a inflação dos anos 80. E supera. Todos os dias.
Derrapadas na política não podem ser tratadas como passeio de aula de direção defensiva. Às vezes, é preciso freada brusca, alinhamento e troca de motorista. Em Taquaritinga, por exemplo, um vereador do Novo — velho, mas daquele velho que não é idade, é software não atualizado — resolveu avisar que a pista de Santa Ernestina está perigosa. Principalmente, segundo ele, para mulheres, que teriam “menor habilidade na direção”.
É sempre edificante quando um parlamentar confessa, em voz alta, que parou na rotatória da sociedade e nunca mais saiu. Dá quase pena. Mas também não dá para exigir de alguém aquilo que a pessoa não tem condição de entregar: compreensão básica do papel da mulher no século XXI.
A pista pode até ser perigosa. Mas perigoso também é o sujeito que pega carona na política para legislar com o farol baixo, seta quebrada e um manual ultrapassado.
No fim, a crise é moral — e não daquela que se resolve com missa de domingo ou manual de boas maneiras. É estrutural. É sistêmica. E, pior: é conveniente demais para quem deveria combatê-la…



