Por: Nadia Araujo*
Esta semana, fomos atravessados por experiências que, acredito, ditarão a forma como compreendemos o luto individual: ele foi televisionado.
Tudo começou com Tadeu Schmidt indo ao ar em rede nacional para homenagear o irmão, Oscar e honrar seu nome da forma que acreditava ser a correta: trabalhando. Se você for “manteiga derretida” como eu, certamente chorou junto com ele. Aquela voz embargada, a tentativa de fingir normalidade, o pedido de desculpas… Não estou aqui para ditar como cada um deve viver esse momento pelo qual, cedo ou tarde, todos passaremos. Mas o que me chamou a atenção foi justamente o pedido de perdão, como se fosse errado sentir, como se precisássemos entregar 100% de nós mesmos mesmo quando o mundo desaba.
O segundo caso foi o de Ana Paula, que sempre falou com devoção sobre a conexão e o apoio do pai. Ela precisou escolher entre o confinamento e a despedida. Nessas horas, sinto que o destino brinca conosco; às vezes, parece até que nos odeia. O sonho de vencer o maior reality show do país, a chance de garantir a aposentadoria e o futuro, veio acompanhado da maior dor do mundo e quantas vezes precisamos viver essa dualidade nas nossas vidas.
E foi essa temática que me fez escolher o luto como tema para a coluna desta semana. Dito isso, chego à explicação do título. Existe uma teoria de que o luto é como glitter: você acha que limpou, que se livrou dele, mas, em um belo dia, abre uma gaveta e ele está lá, brilhando, exigindo uma nova limpeza. Na minha visão, o luto é como areia.
A areia é difícil de tirar, é verdade. Mas, quando você a encontra perdida em um bolso ou no fundo da bolsa, ela te lembra um dia quente na praia. E eu queria compartilhar com vocês o meu “dia quente”: ele se chama Osvaldo, ou melhor, o meu Vozinho.
Vozinho foi meu bisavô paterno. Quem me conhece, conhece esse “veinho”, porque vivo falando de suas aventuras e das vezes em que ele testava meu coração, como da vez que ele colocou uma cadeira em cima da mesa e subiu nela. Ele se foi há dois anos, mas seu amor ficou impregnado em mim como areia de praia.
Enquanto escrevo, achei um grão de areia: um relógio antigo (tipo aqueles dos desenhos animados, com dois sinos em cima). Ele me leva imediatamente para a cozinha do meu avô, e essa lembrança tem cheiro do bolinho de arroz que ele fazia e comíamos juntos. Outro grão de areia é o cheiro de panetone, ele amava. Caixas de bombom, nem se fala: por 27 anos, religiosamente, ganhei caixas de bombons na Páscoa.
As orquídeas são como um mergulho no mar; elas me levam para ele me mostrando como sua coleção estava linda e até para o dia em que brigamos, pois segundo o próprio, eu estava dando orquídeas demais para ele. Eu jamais vou querer me livrar dessa areia. Muito pelo contrário: quando a encontro, tento eternizá-la de alguma forma. Quero sempre lembrar de como eu dei risada com o idoso mais mau humorado do mundo. Agora mesmo, escrevendo isso, sinto como se estivesse soterrada por ela. Eu amava meu avô, mas, acima de tudo, ele me fazia sentir que eu era amada, sem nunca verbalizar isso de forma literal, mas quando ele me ligava e perguntava se eu estava me agasalhando direito, isso me bastava.



