Por: Gustavo Girotto*
Caso o noticiário se confirme, aquele garoto loiro de Jaboticabal — DeMolay do capítulo Fé e Perseverança, contemporâneo da minha geração, instalado por nós, de Taquaritinga, do capítulo Líbero Badaró — poderá alcançar o voo mais alto já registrado por um capítulo DeMolay no Brasil: o Ministério da Fazenda.
A possível saída de Fernando Haddad do comando da pasta, em 2026, abriu uma disputa que, curiosamente, não parece disputa. O secretário-executivo Dario Durigan surge como sucessor natural. Tem o apoio do próprio ministro, boa circulação no Palácio do Planalto e aceitação no PT. Falta apenas o gesto final — sempre teatral — do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ainda não oficializou a decisão.
Nos bastidores, Haddad tem sido direto: Durigan é o nome para garantir continuidade. Não apenas administrativa, mas conceitual. O secretário chegou à Fazenda em 2023, após a saída de Gabriel Galípolo para o Banco Central, mas sua relação com Haddad é anterior — vem da Prefeitura de São Paulo, passa pela Subchefia para Assuntos Jurídicos da Presidência no governo Dilma Rousseff e se consolida numa formação jurídica que não costuma render aplausos em coquetéis: advogado pela USP, mestre pela UnB.
Antes de retornar à Esplanada, Durigan foi chefe de políticas públicas do WhatsApp. Um detalhe que, no Brasil contemporâneo, vale mais do que muitos discursos inflamados: conhece o poder das plataformas, entende o ruído, sabe onde o debate degrada em histeria. Desde que assumiu, a Fazenda avançou em sua agenda central — arcabouço fiscal, rearranjos institucionais, contenção de danos — e Durigan passou a frequentar discussões estratégicas no Planalto, inclusive no pacote de ajuste fiscal do fim de 2024.
O recado é simples, quase didático. Enquanto alguns se exibem com medalhinhas penduradas no pescoço, capa e balde de pipoca — a estética infantilizada de uma vaidade ruidosa — Durigan encarna a liderança de um sênior DeMolay no sentido mais amplo e literal: o sujeito que atravessa o poder sem anunciar a própria travessia. Sem holofote, sem bravata, sem fantasia.
No Brasil de hoje, onde a política virou concurso de figurino e performance para redes sociais, isso já seria digno de nota. Mas há algo mais incômodo. Não sei qual é a maior honraria DeMolay da história, mas arrisco dizer que nenhuma delas se compara à possibilidade de um sênior DeMolay chegar ao cofre da República — não para posar para fotos em templos, mas para decidir, em silêncio, quanto custa a realidade.
Independentemente de chegar ou não, Durigan já fez história. Enquanto muitos colecionam cargos de ego, ele acumula feitos. E é por isso que digo — com o incômodo que a verdade costuma provocar — que tenho orgulho de chamá-lo, ao lado de Neto Cavicchioli, Alexandre Enoki e de mais alguns poucos que não completam as duas mãos, de irmão…
*Gustavo Girotto é jornalista.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



