quinta-feira, 16 abril, 2026

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Artigo: Mazzaropi Vive!

O Brasil caipira nem tanto

Por: Ruan Reis*

Há 114 anos, no dia 9 de abril, nascia Amácio Mazzaropi. E não é exagero dizer que, com ele, nasceu também uma forma inteira de enxergar o Brasil a cultura e a comédia nacional.

Mazzaropi não foi apenas o comediante das grandes massas. Foi cronista de um país que muitas vezes não cabia nos jornais da alta classe, mas vivia nas beiradas do fogão de lenha, nas prosas de varanda e nas estradas de terra batida. Seu “Jeca” não era só personagem era espelho de um povo. Um reflexo honesto, às vezes ingênuo, às vezes sagaz, mas sempre profundamente humano da cultura caipira.

E hoje, ao olhar para essa marca de 114 anos, é impossível não sentir um aperto no peito. Porque celebrar Mazzaropi também é reconhecer que o Brasil que ele retratava vai, aos poucos, se apagando. Não de forma brusca, mas como uma lembrança que vai ficando distante, diluída no tempo, substituída pelo barulho das cidades e pela pressa de um mundo que já não tem, tempo para ouvir histórias.

É aí que a ligação se torna pessoal.

Eu, Ruan Reis, comediante, também do interior de São Paulo, me vejo inevitavelmente atravessado por esse legado. Não só por ter conhecido Mazzaropi em reprises de domingos à tarde, com meu avô, ou de comprar DVD’s com compilados de suas obras, mas também, porque fazer humor no interior não é só contar piada, é carregar um sotaque, um jeito de olhar, uma memória coletiva. É entender que o riso também pode ser raiz.

Não à toa, crio em 2013 nas ondas da Rádio Clube Imperial, ao lado de meus amigos, num modesto programa que ia ao ar aos sábados de manhã, o personagem que carrega demais esse legado, Seu Firmino não é só uma auto referência a Mazzaropi, mas, também aos mesmos avós que assistiam comigo as reprises de seus filmes no sofá da sala. Ter um personagem caipira que faz graça, é abraçar a nossa cultura, que como comediante já não cabe mais na nossa cara, daí, temos que criar mais uma para poder levar essa verdade por onde andarmos.

Até mesmo quando eu e meus amigos, nos juntamos para fazer o filme independente “Eles Existem”, ali muitas vezes dizia para eles, e também em entrevistas sobre o projeto “estamos sendo iguais ao Mazzaropi” acreditando na nossa história e seguindo com poucos recursos, com um único propósito- fazer rir.

Assim como Mazzaropi, há em mim e em tantos outros artistas do interior  uma vontade quase teimosa de preservar o que somos. De rir das nossas próprias histórias, das nossas manias, dos nossos exageros. De transformar o simples em extraordinário.

Mas há uma diferença dolorosa: Mazzaropi ainda viveu num tempo em que essa cultura era maioria, era viva, era dominante. Hoje, nós resistimos. Lutamos contra o esquecimento. Contra a pasteurização cultural que tenta deixar tudo igual, tudo rápido, tudo descartável. Levando à substituição de tradições locais por uma estética americanizada e sertaneja comercial.

Ele nos ensinou que o humor pode ser identidade. Que o riso pode carregar memória. E que o caipira tantas vezes subestimado é, na verdade, um dos pilares mais autênticos do Brasil.

Se a cultura caipira está chegando ao fim, como muitos dizem, então cabe a nós decidir: vamos assistir isso acontecer em silêncio ou vamos, à nossa maneira, continuar contando essas histórias?

Mazzaropi fez a parte dele e fez com genialidade.

Agora, talvez, seja a nossa vez de segurar esse bastão… nem que seja com uma boa piada na ponta da língua.

Por isso, lembrar Mazzaropi não é apenas homenagem. É quase um ato de resistência.

*Ruan Reis é um apaixonado por bom humor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.