sábado, 24 outubro, 2026
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Crônica: A República dos Espelhos

Quando Lima Barreto encontraria o Brasil diante de uma tela.

Por: Sérgio Sant’Anna*

Se Lima Barreto ressuscitasse nesta manhã, vestisse um paletó já gasto pelo tempo e saísse às ruas brasileiras, talvez não precisasse de muito esforço para encontrar matéria-prima para suas crônicas. Bastaria um celular com acesso à internet, uma passagem de ônibus e algumas horas de observação. O escritor, que tão bem conheceu as contradições da Primeira República, descobriria que o Brasil mudou de figurino, mas conserva certas vergonhas debaixo da roupa. E, se antigamente a República prometia liberdade enquanto distribuía privilégios, hoje a democracia desfila nas redes sociais enquanto a desigualdade continua sentada na primeira fila.

Imagino Lima Barreto caminhando por uma avenida movimentada, observando homens engravatados que falam de meritocracia enquanto seus funcionários mal conseguem pagar o aluguel. Talvez anotasse, em seu caderno imaginário, que o brasileiro inventou uma nova forma de aristocracia: a dos que podem comprar o tempo dos outros. Afinal, como explicar a um trabalhador que passa três horas por dia no transporte público que todos possuem as mesmas oportunidades? A meritocracia, quando ignora os pontos de partida, transforma a desigualdade em culpa individual. E os vencedores, convenientemente, atribuem o sucesso ao próprio talento, esquecendo-se das escadas que encontraram pelo caminho.

O autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma provavelmente reconheceria, com amarga ironia, o patriotismo de ocasião. Bandeiras nas janelas, discursos inflamados, hinos compartilhados e ofensas dirigidas a quem pensa diferente. O amor à pátria, que deveria manifestar-se no cuidado com a população, converteu-se, para alguns, em instrumento de disputa. Queremos um país grandioso, desde que a grandeza não exija repartir oportunidades, respeitar diferenças ou reconhecer erros. Policarpo, coitado, acreditou tanto no Brasil que terminou esmagado por suas próprias ilusões. Se voltasse hoje, talvez precisasse de atendimento psicológico para sobreviver à quantidade de brasileiros que amam a nação, mas desprezam o próprio compatriota.

Nas redes sociais, o velho Lima encontraria um espetáculo ainda mais extraordinário. Nunca tivemos tantas ferramentas para comunicar ideias e, paradoxalmente, parecemos tão dispostos a dispensar o pensamento. Publicam-se opiniões antes da leitura, sentenças antes da investigação e acusações antes de qualquer prova. A pressa tornou-se virtude, e a reflexão, um inconveniente. O filósofo Byung-Chul Han, ao analisar a sociedade do desempenho e o excesso de estímulos, oferece-nos uma chave para compreender essa inquietação permanente. Precisamos aparecer, produzir, responder, opinar. Até o silêncio parece exigir justificativa. E, nesse imenso tribunal digital, todos querem ser juízes, embora poucos aceitem o trabalho de estudar os autos.

Como professor de Redação, observo esse fenômeno com uma mistura de preocupação e espanto. Peço a um estudante que leia um texto, identifique sua tese, examine os argumentos e construa uma conclusão consistente. Em troca, às vezes recebo a pergunta que resume uma época: “Professor, não tem um resumo pronto?” Não condeno o jovem por desejar praticidade; também eu gostaria de corrigir menos redações em determinadas noites. O que me inquieta é a possibilidade de que a educação seja reduzida à busca por atalhos. Paulo Freire defendia uma educação capaz de desenvolver a consciência crítica, não uma fábrica de respostas automáticas. Educar não é entregar o pensamento embrulhado para presente; é ensinar alguém a desconfiar, inclusive das próprias certezas.

Eis que surge a inteligência artificial, essa nova personagem da comédia humana, capaz de redigir textos, organizar informações e responder a perguntas em segundos. Alguns anunciam o fim da inteligência; outros, o início de uma era maravilhosa. Eu, que prefiro desconfiar tanto dos apocalipses quanto das promessas milagrosas, vejo uma ferramenta poderosa cuja utilidade depende da maneira como a empregamos. Se um aluno a utiliza para comparar argumentos, ampliar repertórios e revisar sua escrita, pode aprender muito. Se a utiliza para substituir toda leitura e terceirizar o raciocínio, corre o risco de apresentar um texto impecável sem conseguir explicar uma única ideia. A máquina pode organizar palavras; a responsabilidade pelo pensamento, entretanto, não deveria ser terceirizada.

Lima Barreto talvez sorrisse ao descobrir que a sociedade continua distribuindo títulos de importância com base na aparência. Antigamente, o prestígio podia depender do sobrenome, do cargo ou da proximidade com os poderosos. Hoje, acrescentamos a quantidade de seguidores, as curtidas e a habilidade de transformar a própria vida em espetáculo. Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, já examinava uma realidade na qual as relações sociais passam a ser mediadas por imagens. O sujeito contemporâneo não deseja apenas viver uma experiência: deseja provar que a viveu. A refeição precisa ser fotografada, a viagem exige testemunhas digitais e até a solidariedade parece incompleta quando não rende uma publicação. A caridade, quando depende de plateia, corre o risco de confundir generosidade com propaganda.

Mas seria injusto culpar somente as telas. A miséria não nasceu com os aplicativos, o racismo não foi inventado pelos algoritmos e a violência contra a mulher não começou com as discussões virtuais. Nossa história, marcada pela escravidão e pela concentração de riqueza, deixou cicatrizes que não desaparecem com discursos otimistas. Em Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus mostrou um Brasil que muitos preferiam não enxergar: aquele em que a fome invade a casa e a dignidade precisa resistir à falta do essencial. Se Lima Barreto e Carolina se encontrassem hoje, talvez descobrissem que o país aprendeu a esconder suas feridas atrás de filtros, mas ainda não aprendeu a tratá-las. Há brasileiros discutindo a cor da bandeira enquanto outros discutem qual refeição deixarão de fazer.

A violência, aliás, parece adquirir uma estranha normalidade quando deixa de acontecer perto de nós. Assistimos a notícias de feminicídio, racismo, agressões contra professores e ataques a pessoas vulneráveis como quem acompanha a previsão do tempo. Sentimos indignação por alguns minutos, compartilhamos uma frase de efeito e seguimos para o próximo vídeo. Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, chamou a atenção para os perigos da ausência de reflexão e de responsabilidade moral. Não se trata de equiparar situações históricas distintas, mas de compreender que a crueldade também se alimenta da indiferença cotidiana. Uma sociedade não se torna insensível de uma hora para outra; acostuma-se, pouco a pouco, ao sofrimento que aprende a considerar problema alheio.

E os professores? Ah, se Lima Barreto visitasse uma sala de aula, talvez reconhecesse ali uma das mais antigas contradições nacionais. Todos afirmam que a educação transforma o mundo, mas nem sempre estão dispostos a valorizar quem dedica a vida a essa transformação. Exigimos do docente conhecimento, equilíbrio emocional, criatividade, atualização tecnológica, domínio de turma e resultados extraordinários. Depois, frequentemente, tratamos sua profissão como se ensinar fosse apenas transmitir informações que qualquer dispositivo poderia fornecer. Esquecemos que a escola também é lugar de encontro, de escuta, de conflito intelectual e de descoberta humana. Um professor não entrega apenas conteúdos: ajuda a formar leitores capazes de compreender o mundo e cidadãos capazes de questioná-lo. Desvalorizar o magistério é economizar no presente para pagar uma conta muito mais alta no futuro.

Talvez o maior escândalo do nosso tempo seja a distância entre aquilo que proclamamos e aquilo que praticamos. Defendemos a liberdade, desde que ninguém conteste nossas opiniões; exigimos respeito, desde que ele não seja destinado a quem julgamos diferente; pedimos honestidade, desde que a verdade não prejudique nossos interesses. Machado de Assis, mestre em desvendar as vaidades humanas, encontraria nesse comportamento material suficiente para outro Memórias Póstumas de Brás Cubas. Afinal, nossa hipocrisia raramente se apresenta como defeito: prefere comparecer à sociedade vestida de virtude. O problema não é que os seres humanos tenham contradições; é que algumas pessoas transformam suas contradições em leis para os outros e em exceções para si mesmas.

Apesar disso, não me convenço de que estejamos condenados à repetição dos nossos fracassos. Se a literatura denuncia, também pode despertar. Se a escola revela injustiças, também pode formar pessoas dispostas a combatê-las. Se a tecnologia espalha desinformação, também pode aproximar conhecimentos e ampliar vozes historicamente silenciadas. A esperança, contudo, não é um produto que se compra nem uma frase motivacional que se compartilha. Ela exige trabalho, participação, leitura, responsabilidade pública e disposição para rever privilégios. O educador Paulo Freire compreendia a educação como prática da liberdade; talvez seja justamente essa a tarefa mais urgente de nosso tempo: recuperar a liberdade de pensar para além das respostas fáceis e das opiniões que recebemos prontas.

Por fim, imagino Lima Barreto encerrando sua crônica em um café, observando a multidão que atravessa a rua com os olhos presos às telas. Talvez perguntasse, com aquela ironia que incomoda os satisfeitos: de que vale uma República de cidadãos conectados se tantos permanecem socialmente invisíveis? Eu, professor de Redação, acrescentaria outra pergunta: de que serve ensinar alguém a escrever se não lhe ensinarmos também a ler a realidade, reconhecer injustiças e questionar os discursos que pretendem governar sua consciência? A sociedade não precisa apenas de mais palavras; precisa de palavras que provoquem reflexão e produzam responsabilidade. Se Lima Barreto estivesse entre nós, provavelmente não pediria que admirássemos seu retrato na parede. Pediria que olhássemos pela janela. Porque, enquanto continuarmos fascinados com a imagem que o Brasil publica de si mesmo, correremos o risco de não reconhecer o país que, do lado de fora, ainda espera ser transformado.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.