Por: Larissa Cabreira*
Toda decisão grande tem uma véspera, e a véspera é um território curioso. Nada aconteceu ainda, e no entanto tudo já está em jogo. Tem as mesmas vinte e quatro horas de qualquer outro dia, mas nenhum outro demora tanto para passar. O relógio anda, a cabeça corre mais rápido que ele, e a gente fica num estado estranho, entre o que já foi pensado e o que ainda precisa ser feito.
A arte sempre teve fascínio por esse intervalo. A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, é o retrato de uma véspera. A mesa ainda está posta, o pão e o vinho ainda estão ali, e os doze apóstolos reagem cada um de um jeito ao que acabaram de ouvir. Um recua, outro se inclina, outro quase pergunta com as mãos. O que Leonardo pintou foi menos o jantar e mais o que se passa dentro de cada pessoa antes de o gesto chegar.

Há também a véspera de quem pinta. A tela em branco é o território onde todas as possibilidades convivem em paz. Antes do primeiro traço, o quadro pode ser qualquer um. Depois dele, algumas portas se fecham e outras se abrem, e nunca mais será possível voltar ao branco original. Escolher, em arte, é sempre também abrir mão de todos os quadros que a tela poderia ter sido, e é por isso que o gesto pesa tanto na mão de quem o faz.
Se existe uma coisa que a arte ensina sobre decidir, é que o primeiro olhar costuma ser o mais apressado. Quem já ficou parado diante de um quadro sabe como é. No começo a gente vê o que esperava ver, o assunto, as cores mais berrantes, o que alguém já disse que estava ali. Só com o tempo o quadro começa a responder. Aparece um detalhe no canto, uma sombra que não combinava com o resto, uma expressão que muda de sentido quando a gente chega mais perto. Museu nenhum cobra ingresso para isso, só paciência, e é uma das coisas mais raras que se pode oferecer a si mesmo hoje, num mundo em que quase tudo chega pronto, opinado e embalado.
A véspera, aliás, costuma ser a hora do maior barulho. Todo mundo tem uma frase, uma certeza, um vídeo de quarenta segundos que promete resumir o mundo. Nessa hora vale fazer o que o bom visitante de museu faz, que é baixar o volume em volta e perguntar o que, exatamente, se está vendo. O que é fato e o que foi só repetido tantas vezes que passou a parecer fato. O que está dentro do quadro e o que ficou de fora da moldura. Quem aprendeu a olhar uma tela com calma tem uma vantagem enorme nesse dia, porque já treinou a coisa mais difícil, que é desconfiar da própria pressa.
No domingo, dia 25, o Brasil volta às urnas para o segundo turno das eleições.
Depois de um primeiro turno acirrado, que dividiu opiniões em mesas de família, grupos de mensagem e filas de padaria, chega a hora em que a conversa precisa dar lugar à decisão. E decisão, ao contrário da conversa, não admite barulho de fundo.
A democracia tem um desenho curioso. Ela só existe no instante em que cada pessoa, sozinha e sem plateia, faz um traço que isolado parece quase nada. Somados, esses traços compõem a única obra que ninguém assina sozinho, o retrato de um país inteiro. Quem vota por impulso, por raiva ou por repetição desenha de olhos fechados. Quem deixa o espaço em branco também escolhe, mas raramente o quadro que gostaria de ver depois.
Por isso a véspera importa tanto.
É a hora de se informar com calma, de procurar mais de uma fonte, de checar o que chegou pelo celular antes de repassar e de lembrar que o vizinho que vota diferente de você também está fazendo a parte dele da mesma obra.
A cabine de votação é um pequeno ateliê de portas fechadas, o único lugar onde cada um assina sozinho um pedaço do quadro coletivo, sem aplauso e sem chance de refazer. Quem já encarou uma tela em branco conhece o peso exato desse minuto.
Amanhã, cada um assina a sua parte em silêncio. Que seja de olhos abertos, o que, em arte e fora dela, é a forma mais honesta de escolher.




