Por: Sérgio Sant’Anna*
Há dias em que a morte parece escolher uma paisagem para doer mais. Talvez seja apenas impressão de quem escreve, mas, naquela semana, Urubici parecia ter sido coberta por uma tristeza que ultrapassava as montanhas. Rick, da dupla Rick e Renner, havia partido de maneira trágica aos 59 anos, depois da queda do helicóptero na Serra Catarinense, e os destroços somente seriam encontrados no dia 22 de setembro. Eu, professor de Língua Portuguesa e redator, acostumado a procurar palavras para quase tudo, naquela hora descobri que existem acontecimentos para os quais nenhuma palavra é suficiente.
Cresci ouvindo música sertaneja. Antes que eu soubesse distinguir uma metáfora de uma metonímia, já conhecia a tristeza escondida na voz dos meus avós e dos meus tios. O rádio fazia parte das casas, das cozinhas, das tardes compridas e dos domingos. Vieram Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Milionário e José Rico, Chitãozinho e Xororó, João Mineiro e Marciano, e tantos outros. O sertanejo, para mim, nunca foi apenas um gênero musical: foi uma espécie de álbum de família, com cheiro de café, estrada de chão, varanda e saudade.
Talvez por isso a morte de Rick tenha me atingido de uma maneira particularmente silenciosa. Eu conheço esse tipo de música não somente pelos discos, pelas rádios ou pelos palcos, mas pelas pessoas que me ensinaram a ouvi-la. Meus avós e meus tios já não estão todos aqui para comentar uma canção, lembrar um cantor ou contar uma história. E quando um artista morre, às vezes não morre somente o artista: desaparece também um pedaço do tempo em que nós o escutávamos.
Rick era cantor, compositor e produtor. Ao lado de Renner, construiu uma trajetória de aproximadamente quatro décadas, e sua assinatura também apareceu em músicas gravadas por outros grandes nomes da música sertaneja. O Ministério da Cultura destacou justamente essa dimensão de sua obra, lembrando composições que passaram a fazer parte da memória do gênero. Há artistas que interpretam músicas; outros ajudam a escrever a própria história musical de um país. Rick pertenceu a essa segunda categoria.
E então veio Urubici. Quem conhece a Serra Catarinense sabe que aquelas montanhas têm uma beleza quase cinematográfica. Mas montanha também é imprevisibilidade. Naqueles dias, o tempo se mostrava severo, instável, com mudanças capazes de acontecer rapidamente. Especialistas explicaram que o encontro entre massas de ar quente vindas do litoral e o ar frio das áreas mais elevadas pode provocar a formação repentina de nuvens e alterar as condições de voo em poucos minutos.
E há algo de profundamente simbólico nisso: a primavera estava chegando. O calendário anunciava flores, renovação, recomeço. Entretanto, Urubici amanhecia envolta em uma história de ausência. Enquanto a natureza se preparava para florescer, famílias se preparavam para velar seus mortos. A primavera, que deveria trazer a promessa do nascimento, chegava carregando a brutalidade da despedida.
Pensei então em Manuel Bandeira e em sua maneira tão humana de escrever sobre a morte. Pensei em Consoada, naquele encontro imaginado com a própria finitude. Pensei também em Carlos Drummond de Andrade, porque há momentos em que a poesia parece saber aquilo que nós ainda não conseguimos dizer. A literatura brasileira sempre soube que morrer é também deixar um silêncio no lugar onde antes havia uma voz.
Na música, esse silêncio tem muitas trilhas sonoras. Lembrei-me de Tocando em Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira, porque algumas despedidas nos obrigam a continuar caminhando. Lembrei-me de Evidências, não pela temática da morte, mas porque determinadas canções permanecem associadas a pessoas, épocas e afetos. Lembrei-me de Naquela Mesa, de Nelson Gonçalves, talvez uma das canções brasileiras mais dolorosamente associadas à ausência, e de Pedaço de Mim, de Chico Buarque, em que a falta se transforma em matéria poética.
No sertanejo, a morte nunca foi uma estranha. O sertanejo raiz nasceu cercado de perdas, partidas, boiadas, estradas, amores interrompidos, despedidas e saudades. A viola sempre soube chorar. Tião Carreiro, Pena Branca e Xavantinho, Tonico e Tinoco, Liu e Léu, Milionário e José Rico ensinaram gerações de brasileiros que a tristeza também pode ser cantada. Talvez seja por isso que, diante da morte de Rick, tanta gente tenha procurado novamente essas músicas antigas: quando a vida nos falta, buscamos canções que saibam falar por nós.
Como professor de Língua Portuguesa, passei boa parte da vida ensinando que as palavras possuem sentidos, contextos, relações, intenções. Mas existe uma palavra que desafia qualquer análise semântica: saudade. Podemos defini-la, classificá-la, buscar sua origem, estudá-la em poemas e canções. Ainda assim, quando alguém que conhecemos por meio da música morre, descobrimos que saudade não é apenas uma palavra. É uma experiência.
Talvez o filósofo Martin Heidegger tivesse muito a nos dizer sobre esse instante em que a morte deixa de ser uma ideia distante e passa a ocupar concretamente o nosso pensamento. A morte dos outros nos recorda, de maneira incômoda, a nossa própria finitude. E Epicuro, ao refletir sobre a morte, tentou nos ensinar que ela não deveria ser transformada em tormento permanente. Mas a filosofia pode explicar a morte; não consegue impedir a lágrima.
Na tarde em que a primavera começou a nascer no calendário, Urubici continuava cercada por montanhas. O vento atravessava a Serra, as nuvens escondiam parte da paisagem e as equipes de busca trabalhavam em meio a uma geografia difícil. Os destroços foram localizados depois de horas de buscas, e a confirmação da morte dos cinco ocupantes transformou a expectativa em luto. Naquele momento, a palavra “primavera” parecia quase uma ironia.
Imaginei meus avós ouvindo Rick. Imaginei uma antiga sala, uma televisão ligada, uma música sertaneja preenchendo o ambiente e alguém comentando que determinada canção era bonita. A memória tem dessas coisas: ela não respeita calendário. Uma notícia de 2026 pode nos devolver instantaneamente a uma década passada. Uma voz que desaparece pode fazer reaparecer uma voz que também já desapareceu dentro da nossa própria família.
Rick morreu, mas sua voz não obedece à morte. Continuará nas gravações, nos discos, nas lembranças, nos vídeos, nas rádios e, principalmente, na memória daqueles que encontraram alguma parte de sua própria história nas canções que ele cantou ou compôs. A morte interrompe o corpo; não consegue interromper aquilo que uma obra passa a significar para quem a escuta.
Talvez seja esse o consolo possível. Não um consolo fácil, porque não acredito em frases prontas diante da morte. Acredito, como professor, na força das palavras, mas sei que algumas palavras precisam primeiro atravessar o silêncio. Rick partiu entre montanhas, sob um tempo severo, justamente quando a natureza anunciava a renovação. E eu fiquei pensando que talvez a primavera seja também isso: a vida insistindo em nascer mesmo quando alguém que amávamos acaba de partir.
Naquela noite, talvez por tudo isso, ouvi mentalmente as vozes do sertanejo que me acompanhou desde a infância. Pensei em meus avós, nos meus tios, nas antigas canções, nas estradas e nas despedidas. E compreendi, mais uma vez, que ensinar Língua Portuguesa é também ensinar a perceber o que as palavras escondem. “Adeus” é uma palavra curta. “Morte” também. “Saudade” parece pequena quando escrita no papel. Mas há palavras que carregam montanhas inteiras. E naquela primavera de Urubici, entre nuvens, silêncio e tristeza, senti que uma delas havia se tornado imensa: Rick.
*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.




