Educação política como resposta a desinformação e a polarização afetiva no contexto das eleições 2026
Por: Maria Clara Gimenes Gomes*, Vitória Baldassa Guimarães Pereira** e Luciléia Aparecida Colombo***
As mídias de informação se aproximam das eleições em um patamar inédito de instabilidade, sofisticação e incertezas. Se as eleições anteriores já sofreram com a propagação de Fake News e desafiaram a integridade democrática, o cenário atual é agravado pela sofisticação da inteligência artificial e pela consolidação da polarização afetiva entre os jovens.
Os eleitores não estão apenas expostos a um volume avassalador de informações, mas também constantemente imersos em conteúdos sintéticos, capazes de clonar vozes, vídeos (deepfakes) e hipersonalizar discursos políticos em tempo real.
Neste panorama, a proliferação de conteúdos gerados pela IA altera drasticamente a dinâmica da disputa eleitoral. A facilidade técnica de fabricar narrativas verdadeiras reduz o custo da desinformação e acelera a sua circulação. No entanto, o impacto da IA vai além de simples mentiras. Ela atua como catalisador da polarização afetiva, isto é, ao sentimento de aversão e hostilidade mútua entre grupos políticos opostos. O “outro” deixa de ser apenas um adversário legítimo no debate político e passa a ser enxergado como uma ameaça à existência.
Como consequência disso, os algoritmos das redes sociais utilizam conteúdos gerados por IA para explorar vieses e emoções: o medo, a raiva, e a indignação, por exemplo. O consumo contínuo desses estímulos hiperalgoritimizados fortalecem a adesão a uma narrativa política decorrente de uma identidade ou de um afeto negativo pelo grupo rival, não pela análise racional de propostas e planos de governo. Por conseguinte, as eleições de 2026 não se desenham apenas como uma disputa de projetos para o país, mas sim como uma batalha emocional e identitária intensificada pelo uso da tecnologia.
Além disso, a sofisticação ideológica e os algoritmos criaram o terreno fértil para a polarização afetiva, a vulnerabilidade do eleitorado, principalmente os mais jovens, que é ampliada pelo analfabetismo funcional digital; confundir o domínio da web é diferente do letramento digital, afinal, ser ativo digitalmente não garante a capacidade de checar informações, fontes, reconhecer sátiras ou identificar simulações de conteúdos gerados por inteligência artificial. Essa lacuna faz com que parcelas significativas de jovens consumam e compartilhem conteúdo político sem nem ponderar sobre a veracidade e ou intenção do que está sendo compartilhado.
Em decorrência desse cenário, a mediação crítica e a formação do pensamento político migra do jornalismo profissional, com fontes, dados, estatísticas, para a cultura dos influenciadores digitais. A política passa a ser traduzida pela lógica do entretenimento e do espetáculo. Formatados para prender a atenção em poucos segundos, com conteúdo que frequentemente reduzem debates complexos a bordões, juízos morais e dinâmicas de confronto, reduzidos a polarizações extremas.
Exemplo emblemático dessa tendência são os vídeos virais no estilo “debates 30×1” que se proliferaram no Youtube. Neles, um indivíduo e uma determinada pauta são centralizados no debate, enquanto outros participantes são convidados a contestar ou “refutar” a posição apresentada. Nesses casos, o objetivo central raramente é o diálogo construtivo ou a exposição articulada de ideias, mas sim a produção de cortes sensacionalistas; lados opostos objetivando desqualificar o outro, em um ambiente controlado para gerar clipes altamente compartilháveis. Logo, o debate político é transformado em uma arena política, na qual a adesão do jovem eleitor se dá por identificação estética e emocional com o criador de conteúdo, reforçando o senso comum.
Esse cenário explicita a necessidade emergente do povo brasileiro em desenvolver a capacidade de avaliar criticamente as informações e reconhecer diferentes perspectivas políticas, especialmente em um contexto de desinformação e polarização afetiva. Portanto, a educação política e o letramento digital não devem ser compreendidos apenas como escolhas e obrigações pedagógicas, mas como instrumentos fundamentais para a formação de cidadãos capazes de participar do debate público de maneira crítica, responsável e democrática. Em uma realidade eleitoral cada vez mais atravessada pelo ambiente digital, educar para a política também significa educar para a democracia.




