Por: Sérgio Sant’Anna*
Há dias em que entro na sala de aula carregando mais do que livros, provas e um computador. Carrego histórias, expectativas, dúvidas, planejamentos, redações para corrigir e, sobretudo, a esperança — talvez teimosa — de que aquilo que digo possa permanecer na memória de alguém. Sou professor há muitos anos e já aprendi que ensinar é uma espécie de exercício de Sísifo: todos os dias, empurramos a pedra do conhecimento morro acima, mesmo sabendo que, na manhã seguinte, ela poderá estar novamente no ponto de partida. A diferença é que, no mito grego, Sísifo era condenado; nós, professores, somos mal remunerados, esquecidos pelas autoridades, anulados por aqueles que nos enxergam como babás.
Costumo brincar que o professor é o único profissional que trabalha antes de trabalhar e continua trabalhando depois que termina de trabalhar. A aula das oito da manhã começa, muitas vezes, na noite anterior, quando preparo slides, seleciono textos, penso em estratégias, procuro uma imagem, uma música, uma questão capaz de despertar aquele aluno que parece ter deixado a alma em casa. Depois da aula, ainda existem provas, relatórios, reuniões, planejamentos, mensagens de famílias e dezenas de redações esperando por uma leitura atenta. E, quando alguém pergunta: “Mas professor, você só dá aula?”, sinto vontade de responder com o mesmo espanto de quem pergunta a um maestro se ele apenas movimenta uma batuta.
Talvez a sociedade tenha esquecido que nenhum médico, engenheiro, advogado, cientista ou artista surge pronto. Antes de existir o profissional, existe o professor. Antes do diploma, existe a carteira escolar. Antes da pesquisa, existe a alfabetização. Antes do livro acadêmico, alguém ensinou a criança a juntar letras. Paulo Freire compreendeu isso profundamente ao defender uma educação capaz de formar sujeitos críticos, e não simplesmente pessoas capazes de repetir informações. Entretanto, curiosamente, vivemos em uma época em que se exige pensamento crítico do estudante enquanto se oferece pouco reconhecimento àquele que passa a vida ensinando-o a pensar.
É estranho observar essa contradição. A escola é responsabilizada pelo desempenho dos estudantes, pela violência, pela falta de leitura, pela dificuldade de concentração, pelo comportamento, pela preparação para o vestibular, pelo ENEM, pela cidadania e, aparentemente, até pela previsão do tempo. Se um aluno não lê, culpa-se a escola. Se não escreve, culpa-se o professor. Se não interpreta, culpa-se a metodologia. Raramente alguém pergunta quantas horas aquele professor passou planejando uma aula para que um estudante finalmente compreendesse uma metáfora, uma equação, uma reação química ou simplesmente o sentido de um parágrafo.
Quando penso nisso, lembro-me de Sócrates, que transformou a praça pública em espaço de perguntas. O filósofo não entregava respostas prontas; provocava seus interlocutores. Talvez seja exatamente esse o trabalho mais bonito — e mais incompreendido — do professor: provocar. Provocar uma dúvida, uma descoberta, uma inquietação. O problema é que a sociedade contemporânea parece preferir respostas instantâneas. Google responde, aplicativos respondem, inteligências artificiais respondem. Só não sei quem continuará ensinando alguém a formular a pergunta.
A situação se torna ainda mais curiosa quando a própria tecnologia é apresentada como solução para os problemas educacionais. Tablets, plataformas, aplicativos e inteligência artificial chegam às escolas com a promessa de revolucionar o ensino. Sou favorável à tecnologia, evidentemente. O que me preocupa é a ideia de que uma ferramenta possa substituir a presença humana. Uma máquina pode sugerir uma redação, mas não percebe necessariamente o brilho nos olhos de um estudante quando ele finalmente entende aquilo que parecia impossível. Pode corrigir uma frase, mas não conhece o silêncio de quem está tentando encontrar palavras para uma dor que ainda não sabe nomear.
A literatura sempre soube reconhecer aquilo que os discursos oficiais insistem em ignorar. Em O Ateneu, Raul Pompeia transformou a escola em um microcosmo da sociedade; em Coração de Estudante, Milton Nascimento e Wagner Tiso fizeram da educação e da juventude uma espécie de esperança cantada. E há ainda Rubem Alves, que tantas vezes defendeu a beleza do ensinar, aproximando o professor de alguém que desperta desejos e curiosidades. Talvez o professor seja mesmo uma espécie de jardineiro: planta sem saber exatamente quando virá a flor. O salário, porém, frequentemente parece calculado como se ele vendesse apenas sementes.
Também me recordo de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e de sua sociedade organizada para produzir indivíduos adaptados a um sistema. A Educação, em sentido contrário, deveria produzir sujeitos capazes de questionar o próprio sistema. Só que questionar dá trabalho. Ler dá trabalho. Escrever dá trabalho. Pensar dá trabalho. E talvez seja justamente por isso que o professor incomode tanto: porque sua profissão, quando exercida com seriedade, ensina o indivíduo a não aceitar o mundo simplesmente como ele está posto.
Na arte, o professor poderia ser comparado ao restaurador que trabalha silenciosamente sobre uma tela antiga. Pouquíssimas pessoas percebem suas mãos; todos admiram a obra quando ela está pronta. Ninguém olha para uma pintura de Leonardo da Vinci e pergunta quantas vezes o artista precisou recomeçar. Do mesmo modo, ninguém vê as incontáveis tentativas de um professor diante de um aluno que não compreende determinado conteúdo. Vemos o resultado, quando existe resultado. O processo, quase sempre, permanece invisível.
E há uma cena que se repete nas escolas: o professor recebe uma turma numerosa, diferentes níveis de aprendizagem, estudantes com necessidades distintas, problemas familiares, dificuldades emocionais, excesso de telas, déficit de leitura e uma infinidade de demandas. Ainda assim, espera-se que ele produza excelência. Se obtém bons resultados, dizem que os alunos são excelentes. Se os resultados não aparecem, perguntam o que o professor fez de errado. É como se o técnico fosse responsabilizado pela partida sem que ninguém se lembrasse de perguntar em que condições o time entrou em campo.
Enquanto isso, governos anunciam programas, metas, índices, avaliações externas e grandes projetos educacionais. Tudo parece caber perfeitamente em gráficos coloridos. Mas há uma coisa que nenhuma planilha consegue medir: o instante em que um aluno que dizia odiar literatura termina um livro e procura o professor para conversar sobre ele. Nenhum índice registra adequadamente a alegria de quem escreve sua primeira redação sem medo. Nenhuma estatística captura aquele momento em que uma criança lê sozinha pela primeira vez. Esses pequenos milagres não aparecem nas manchetes, mas são precisamente eles que justificam a existência da escola.
Eu continuo acreditando no professor, apesar de tudo. Talvez porque ensinar seja uma profissão profundamente ligada à esperança. Edgar Morin fala da necessidade de uma educação que prepare para a complexidade; Hannah Arendt refletiu sobre a responsabilidade dos adultos diante do mundo que entregam às novas gerações. E eu, diante de uma sala de aula, percebo que ambos têm razão: educar é assumir a responsabilidade de apresentar o mundo aos que ainda estão aprendendo a habitá-lo. Não é pouca coisa. É, talvez, uma das maiores responsabilidades de uma sociedade.
Por isso, quando alguém disser que professor trabalha pouco, que tem muitas férias ou que “qualquer um pode dar aula”, talvez eu apenas respire fundo. Aprendi que algumas respostas não precisam ser ditas imediatamente. Basta lembrar que, todos os dias, quando a campainha toca e eu entro em uma sala, estou tentando fazer aquilo que Sócrates fazia com suas perguntas, que Paulo Freire defendia com sua pedagogia, que a literatura preserva com suas histórias e que a música eterniza com suas melodias: ajudar alguém a enxergar um pouco mais longe. E talvez essa seja a maior ironia da profissão: passamos a vida ensinando os outros a enxergar, enquanto a sociedade ainda parece não enxergar o professor.




