Por: Sérgio Sant’Anna*
Há alguns anos, a crise climática deixou de ser uma previsão distante para tornar-se uma realidade cotidiana. Secas prolongadas, enchentes devastadoras, ondas de calor e incêndios florestais passaram a integrar o noticiário brasileiro com frequência assustadora. Diante desse cenário, não surpreende que a Redação do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) frequentemente dialogue com desafios sociais contemporâneos, exigindo do estudante a capacidade de relacionar conhecimentos científicos, filosóficos, artísticos e culturais para compreender a complexidade desse fenômeno.
Ainda na Antiguidade, a filosofia clássica já oferecia importantes reflexões sobre a relação entre humanidade e natureza. Para Aristóteles, a virtude encontra-se no equilíbrio, princípio que pode ser aplicado à convivência entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Quando a sociedade rompe esse equilíbrio em nome do consumo desenfreado, compromete não apenas os ecossistemas, mas também a própria sobrevivência humana. Já Platão, ao refletir sobre a justiça e o bem comum, indicava que uma sociedade verdadeiramente justa deve pensar no coletivo, perspectiva indispensável diante dos desafios ambientais contemporâneos.
A literatura brasileira também denuncia, há décadas, a exploração predatória dos recursos naturais. Em Vidas Secas, Graciliano Ramosapresenta um sertão marcado pela estiagem, revelando que as adversidades climáticas afetam, sobretudo, as populações socialmente vulneráveis. Embora a obra retrate uma realidade histórica, suas páginas permanecem atuais ao evidenciar como eventos climáticos extremos ampliam desigualdades sociais que persistem no Brasil do século XXI.
Outro importante exemplo encontra-se em João Guimarães Rosa, cuja obra Grande Sertão: Veredas transforma a paisagem brasileira em personagem fundamental da narrativa. As veredas, rios e matas simbolizam a íntima ligação entre o ser humano e o meio ambiente. A destruição desses espaços representa não apenas perdas ecológicas, mas também culturais, históricas e afetivas, uma vez que a identidade nacional foi construída em diálogo permanente com a natureza.
A Música Popular Brasileira oferece repertório igualmente rico para compreender essa temática. Caetano Veloso, em diversas composições, manifesta preocupação com a modernização desordenada e seus impactos sobre a paisagem e sobre as relações humanas. Sua obra convida o ouvinte a refletir sobre o progresso que ignora os limites ambientais e reduz a natureza à condição de mercadoria.
Na obra de Gilberto Gil, essa consciência ambiental torna-se ainda mais explícita. Canções como “Refazenda” celebram os ciclos da natureza e valorizam práticas sustentáveis, enquanto “Parabolicamará” problematiza as transformações tecnológicas e sociais da contemporaneidade. Gil propõe uma visão de desenvolvimento que não rompe com a biodiversidade, mas busca harmonizar inovação, cultura e preservação ambiental.
Também Djavane Tom Jobim eternizaram, por meio da música, a beleza dos elementos naturais brasileiros. Em canções como “Oceano”, Djavan utiliza o mar como metáfora da própria existência humana, despertando sensibilidade diante da grandiosidade da natureza. Já Tom Jobim, em composições como “Águas de Março”, transforma o ciclo das águas em símbolo da renovação da vida, lembrando que rios, chuvas e florestas constituem patrimônios indispensáveis para o equilíbrio climático do planeta.
As artes visuais brasileiras reforçam essa reflexão. Candido Portinari, especialmente na obra “Retirantes”, retrata famílias expulsas pela seca e pela fome, evidenciando como os fenômenos ambientais atingem diretamente a dignidade humana. Já Frans Krajcberg, artista profundamente engajado na defesa das florestas brasileiras, produziu esculturas e fotografias utilizando troncos queimados, denunciando a devastação provocada pelas queimadas e pelo desmatamento na Amazônia e no Cerrado.
Nesse contexto, a Redação do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) não avalia apenas competências linguísticas, mas também a capacidade de estabelecer conexões entre diferentes áreas do conhecimento. Filosofia, literatura, música e artes plásticas tornam-se repertórios socioculturais legítimos para fundamentar argumentos consistentes sobre a crise climática. O estudante que compreende essas relações demonstra senso crítico, visão interdisciplinar e maturidade intelectual, competências valorizadas pela matriz de correção do exame.
Discutir a crise climática na Redação do ENEM significa refletir sobre o futuro do país. A preservação ambiental deixou de ser responsabilidade exclusiva de cientistas ou governantes; tornou-se compromisso ético de toda a sociedade. Inspirados pela filosofia clássica, pela literatura nacional, pela Música Popular Brasileira e pelas artes visuais, compreendemos que proteger a natureza é preservar a própria humanidade. Afinal, um país que cuida de seus rios, florestas e pessoas também escreve uma história mais justa, sustentável e digna para as próximas gerações.
*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



