sábado, 11 julho, 2026

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Artigo: Neymar (nunca) fará falta…

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

O Brasil tem uma curiosa habilidade para fabricar mitologias. Faz isso com políticos, empresários, artistas e, sobretudo, jogadores de futebol.

Em algum momento entre um comercial de refrigerante, uma campanha de material esportivo e uma sequência de dribles contra adversários irrelevantes, convencemo-nos de que Neymar era um gênio.

Não um craque. Não um excelente jogador. Um gênio. A palavra é importante porque cria obrigações.

Gênios mudam histórias. Gênios definem épocas. Gênios aparecem quando tudo está perdido e alteram o rumo dos acontecimentos.

Neymar apareceu quando o futebol brasileiro procurava desesperadamente alguém para ocupar o espaço deixado por Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e Kaká. O país precisava de um herdeiro. Encontrou um garoto habilidoso, carismático e midiático. O resto foi um gigantesco investimento coletivo na esperança.

Durante mais de uma década, o Brasil esperou. Esperou a Copa de Neymar. Esperou o título de Neymar. Esperou a atuação definitiva de Neymar. Esperou a liderança de Neymar.

Esperou, sobretudo, que Neymar se tornasse aquilo que sempre disseram que ele já era. A espera continua.

Ao longo da carreira, criou-se uma estranha situação em que a expectativa passou a valer mais que a realização. Neymar virou uma promessa permanente. Aos 22 anos, era o futuro. Aos 26, era o futuro. Aos 30, ainda era o futuro. Poucos atletas conseguiram envelhecer sem jamais abandonar a condição de promessa. É um feito.

Enquanto isso, o currículo real permaneceu surpreendentemente modesto para alguém apresentado como sucessor de Pelé. A Seleção acumulou eliminações, frustrações e explicações. Sempre houve uma justificativa disponível. A lesão. O técnico. A arbitragem. O companheiro. O azar. O gramado. O calendário.

O que raramente apareceu foi a pergunta proibida: e se simplesmente não fosse tudo isso?

No futebol brasileiro, essa hipótese sempre foi tratada como heresia. Porque Neymar nunca foi apenas um jogador. Foi um investimento emocional. Milhões de pessoas passaram anos acreditando que estavam vendo um dos maiores da história. Admitir que talvez tenham exagerado seria desconfortável demais.

Então o mito sobreviveu. Sobreviveu às eliminações. Sobreviveu às ausências. Sobreviveu aos títulos que não vieram. Sobreviveu até mesmo ao fato de que sua influência cultural parece ter sido maior do que sua influência esportiva.

E aí reside a parte mais interessante da história. Poucos brasileiros tiveram uma plataforma tão poderosa. Neymar alcançou um patamar de celebridade que ultrapassou o futebol. Poderia ter usado essa posição para liderar discussões relevantes, apoiar causas consistentes ou representar algo além de si mesmo. Mas isso exigiria uma visão de mundo.

Exigiria compreender que a fama é um instrumento e não apenas uma recompensa.

Em vez disso, sua imagem pública foi sendo ocupada por festas, polêmicas recorrentes, exposições desnecessárias da vida privada e, mais recentemente, pela promoção incessante das apostas esportivas. Talvez seja o retrato perfeito de uma época em que até os ídolos foram reduzidos a vitrines.

Existe uma ironia particular na devoção que Neymar desperta em parte de seus defensores. Muitos se apresentam como guardiões da moral, da família e dos bons costumes. São pessoas que costumam exigir virtude de artistas, professores, jornalistas e políticos.

Mas quando o assunto é Neymar, a régua desaparece. As traições viram meros detalhes. Os escândalos viram perseguição. As apostas viram empreendedorismo. A incoerência vira paixão.

Não defendem necessariamente a carreira de Neymar. Defendem a identificação que construíram com o personagem.

No fundo, Neymar talvez seja o ídolo ideal para uma sociedade fascinada pela aparência. Rico sem medida, famoso sem limites, protegido das consequências e constantemente celebrado por potencialidades que nunca se transformam completamente em realizações.

É um símbolo involuntário do triunfo da imagem sobre a obra. E talvez seja justamente por isso que sua despedida, quando vier, será menos dramática do que muitos imaginam. O Brasil sobreviverá. A Seleção continuará perdendo algumas vezes e vencendo outras. Novos talentos aparecerão. Novos fracassos também. A vida seguirá normalmente.

Porque a verdade inconveniente é que Neymar jamais ocupou o lugar que seus admiradores acreditavam que ocupava. Os grandes atletas deixam legados. Os maiores transformam gerações. Neymar deixa debates. Deixa campanhas publicitárias.

Deixa estatísticas e cortes para redes sociais. Mas deixa muito pouco daquilo que torna um atleta realmente inesquecível.

Seu maior fracasso não foi perder Copas do Mundo. Foi nunca compreender a dimensão do papel que lhe foi entregue. Recebeu talento, visibilidade e dinheiro. Recebeu influência, até um país disposto a chamá-lo de gênio. E devolveu apenas Neymar.

Por isso, quando finalmente desaparecer do centro das atenções, não haverá vazio algum. Neymar nunca fará falta, pois no fim é só mais um garoto que ganhou dinheiro. Gênio é Pelé.

A decadência técnica e moral de Neymar espelha o desastre político do bolsonarismo: muito marketing, pouca entrega, negação da realidade e desperdício de oportunidades históricas. Ambos transformaram crítica em perseguição, cultivaram a própria imagem acima de qualquer projeto coletivo e trocaram legado por autopromoção.

Neymar tinha talento, influência e alcance para representar algo maior do que si mesmo. Preferiu ser apenas uma marca. No fim, sua história não será lembrada pelo que conquistou, mas pela distância entre aquilo que poderia ter sido e aquilo que escolheu se tornar.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.