sábado, 11 julho, 2026

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Crônica: A profissão que insiste em semear manhãs

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há profissões que constroem prédios, outras que salvam vidas, algumas que movem a economia. Mas existe uma que, silenciosamente, torna todas as outras possíveis. O professor é aquele que semeia futuros em terrenos muitas vezes áridos, acreditando que cada palavra lançada pode florescer anos depois. Ser professor, antes de ser uma profissão, é um ato de esperança.

Vivemos tempos curiosos. Nunca a informação esteve tão disponível e, paradoxalmente, nunca o conhecimento pareceu tão desafiado. Em meio às telas que brilham, às notificações incessantes e à pressa cotidiana, o professor continua chegando à sala de aula com um quadro, um livro, uma ideia e uma convicção: a de que vale a pena ensinar.

Paulo Freire dizia que “a educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Talvez seja justamente essa crença que faça milhares de professores acordarem cedo, enfrentarem longas jornadas e seguirem acreditando que uma boa aula pode alterar o destino de alguém.

Rubem Alves costumava afirmar que ensinar é um exercício de imortalidade. O educador permanece vivo na memória de seus alunos por meio das palavras, dos gestos e das inspirações que deixou. Afinal, quem não se recorda daquele professor que enxergou um talento escondido, ofereceu um incentivo inesperado ou simplesmente acreditou quando ninguém mais acreditava?

Entretanto, há dias em que essa esperança parece caminhar de cabeça baixa. Salários insuficientes, excesso de trabalho, falta de reconhecimento e desafios crescentes fazem muitos se perguntarem se ainda vale a pena permanecer na docência. A sociedade cobra resultados da escola, mas, por vezes, esquece de cuidar daqueles que sustentam a própria educação.

Nelson Rodrigues dizia que “subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos”. Talvez possamos adaptar sua reflexão: o desenvolvimento também não se improvisa. Ele nasce nas salas de aula, nas bibliotecas, nos laboratórios e, sobretudo, nas mãos de professores que insistem em ensinar mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis.

A literatura brasileira sempre reconheceu o poder da educação. Machado de Assis, filho de uma família humilde, encontrou nos livros a possibilidade de reinventar a própria história. Carlos Drummond de Andrade eternizou a força das palavras. Cecília Meireles mostrou que a sensibilidade também educa. Em comum, todos tiveram mestres que lhes apresentaram o universo da leitura e do pensamento.

A música brasileira também presta sua homenagem aos educadores. Em “Tocando em Frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira, aprendemos que “cada um de nós compõe a sua história”. O professor participa discretamente da composição da história de milhares de pessoas, mesmo que seu nome raramente apareça nos livros que ajudou seus alunos a escreverem.

Ser professor é aceitar que nem toda colheita será vista. Há sementes que germinam anos depois, quando um antigo estudante decide seguir uma profissão, superar um medo, escrever um livro ou simplesmente ensinar seus próprios filhos a respeitar o próximo. A educação trabalha com o tempo, e o tempo costuma recompensar quem planta com dedicação.

Ainda assim, esperança não pode ser confundida com resignação. Esperar por dias melhores exige ação coletiva. Valorizar o professor significa oferecer condições dignas de trabalho, formação continuada, remuneração justa e, principalmente, respeito. Não há educação de qualidade onde o educador é tratado como peça descartável.

Cada vez que uma criança aprende a ler, um adolescente descobre sua vocação ou um jovem ingressa na universidade, existe um professor que, muitas vezes anonimamente, participou dessa conquista. Os aplausos costumam ser destinados aos vencedores, mas raramente alcançam aqueles que lhes ensinaram os primeiros passos.

Talvez o verdadeiro milagre da educação seja justamente esse: continuar acreditando nas pessoas quando elas próprias ainda duvidam de si. O professor enxerga possibilidades onde muitos só percebem dificuldades. Ele transforma perguntas em caminhos e erros em oportunidades de crescimento.

Por isso, a esperança de ser professor não nasce da certeza de reconhecimento imediato, mas da convicção de que nenhuma sociedade prospera sem aqueles que dedicam a vida a formar cidadãos. Enquanto houver um educador entrando em sala de aula com brilho nos olhos e um aluno disposto a aprender, haverá motivos para acreditar que o futuro ainda pode ser escrito com mais justiça, conhecimento e humanidade.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.