Por: Sérgio Sant’Anna*
Escutei um grito enfurecido de gol quando o primeiro rojão cortou o céu limpo pela onda de frio que se encostara pelo litoral catarinense. Não precisei olhar o relógio nem ligar a televisão. No Brasil, durante a Copa do Mundo, os fogos funcionam melhor que qualquer aplicativo de notificações. O estampido dizia tudo: gol.
Virei para o outro lado da cama e tentei dormir, cansado que estava. Inútil. Veio outro rojão, depois mais três, depois uma sequência que parecia anunciar o fim dos tempos. O Brasil marcava, e a vizinhança comemorava como se cada chute na rede resolvesse também os boletos, os engarrafamentos e as filas dos hospitais. Um rojão isolado significava esperança; uma bateria completa anunciava que a seleção estava inspirada. Os gols chegavam aos meus ouvidos antes de chegarem aos olhos.
Da janela, observei a rua iluminada pelos fogos. Talvez pelo mesmo dia de São João. Algumas casas já exibiam luzes acesas. Gente sorrindo, vestindo verde e amarelo, abraçando-se como velhos amigos reencontrados. A Copa possui esse estranho poder de transformar desconhecidos em companheiros de arquibancada.
Mas nem todos celebravam. No quintal ao lado, os cães do vizinho choravam. Corriam de um lado para o outro, desorientados, sem compreender por que o céu parecia explodir sobre suas cabeças. Seus latidos não eram de alegria; eram pedidos silenciosos de socorro traduzidos em sons aflitos. Cada gol brasileiro era seguido por uma nova onda de estampidos. E cada pipocar fazia os animais se encolherem ainda mais. Enquanto milhões comemoravam uma vitória, aqueles pequenos habitantes de quatro patas viviam uma batalha particular contra o medo. Lembrei-me então de uma frase do filósofo alemão Arthur Schopenhauer: “A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter.” Talvez o verdadeiro teste da nossa alegria seja a capacidade de perceber quem sofre enquanto festejamos.
A seleção seguia brilhando contra a Escócia. Os narradores exaltavam os craques, os bares enchiam-se de brindes, e as redes sociais eram inundadas por memes e previsões otimistas. O país parecia respirar futebol.
No entanto, atrás de alguns portões fechados, havia outras histórias acontecendo. Histórias que jamais apareceriam nos melhores momentos da partida. Foi então que me lembrei de Dona Cleuza, moradora da esquina. Mulher simples, dessas que conhecem pelo nome cada vizinho do bairro. Naquela noite, sua preocupação não era o resultado do jogo. Seu filho autista sofria a cada explosão. Os ruídos inesperados transformavam a comemoração coletiva em angústia individual. Enquanto os fogos iluminavam o céu, lágrimas iluminavam seus olhos. Dona Cleuza tentava acalmá-lo, abraçando-o, fechando portas e janelas, procurando construir um silêncio impossível. Lá fora, o Brasil fazia três gols e garantia uma grande vitória. Lá dentro, mãe e filho lutavam apenas para atravessar aqueles noventa minutos. Duas partidas aconteciam simultaneamente: uma transmitida para o mundo inteiro; outra invisível, disputada no coração de uma família.
Quando o juiz apitou o fim do jogo, ouvi buzinas, gargalhadas e mais uma última sequência de rojões. O Brasil comemorava. E tinha motivos para isso. Enquanto me preparava para dormir, pensei que talvez a verdadeira vitória de uma sociedade não esteja apenas nos gols que faz, porém na sensibilidade de celebrar sem transformar a alegria de muitos no sofrimento de alguns.
*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



