sábado, 16 maio, 2026

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Artigo: Toga combina com jato

Toffoli e Moraes embarcam juntos na mesma encrenca aérea

Por: Augusto Nunes*

Amparada em minuciosa investigação, a Folha informou nesta semana que, entre maio e outubro de 2025, o ministro Alexandre de Moraes viajou oito vezes em jatos executivos pertencentes a empresas controladas por Daniel Vorcaro, dono do finado Banco Master. Todos os voos começaram no aeroporto de Brasília e terminaram em diferentes pistas do Estado de São Paulo. Em quatro deles, o Primeiro Carcereiro do Supremo Tribunal Federal teve a companhia da mulher, Viviane Barci de Moraes. Ela se tornou a advogada mais bem paga da história do Brasil, patrocinada pelo pivô do maior escândalo financeiro ocorrido no País do Carnaval. O contrato assinado pela dupla estabeleceu que Viviane embolsaria R$ 129 milhões para defender Vorcaro por três anos “onde fosse necessário”.

Por exemplo, no tribunal onde há quase sete anos o marido age acima da Constituição, longe da sensatez e fora da lei. Moraes exerce simultaneamente as funções de investigador, delegado, promotor e juiz. Prende, arrebenta, julga, condena, finge que solta perseguidos para imobilizá-los com tornozeleiras eletrônicas, inventa inquéritos sem prazo para acabar, impede o acesso aos autos do advogado da vítima, impõe multas de assustar dono de banco ou condena inocentes à morte por falta de atendimento médico, fora o resto. Os únicos seres que Moraes faz questão de manter em liberdade são Vorcaro e seus asseclas, todos soterrados pelas provas dos muitíssimos crimes, reunidas pelos policiais federais engajados na Operação Compliance. Pescado num dos celulares do chefe da quadrilha, o documento que oficializou o acerto entre Vorcaro e Viviane escancarou a motivação da estranha mudança.

Moraes fez o que ninguém pode fazer impunemente, movido pela certeza de que conseguiria cumprir a cláusula não escrita que justifica as impressionantes cifras do contrato: Viviane foi contratada para que o marido todo poderoso salvasse o Master da morte e livrasse da gaiola o seu dono. Moraes não foi surpreendido por algum surto de misericórdia. Fez o que fez pensando em dinheiro. Além desses 129 milhões de motivos, excitaram a imaginação do ministro requintes e refinamentos que adoçam a vida dos ricos. Como atesta o noticiário da semana, entre eles figura um dos prazeres prediletos do ministro: viajar de jatinho sem pagar um único e escasso tostão.

No Brasil desfigurado pelas patifarias da Era Lula, gente que se julga condenada à impunidade perpétua não perde tempo com álibis. Faz sentido. Neste primeiro quarto de século, o restante do mundo assombrou-se com o Mensalão e o Petrolão. Entre um e outro escândalo de bom tamanho, a invenção do faroeste à brasileira – deformação do original americano em que o bandido persegue o mocinho e prende o xerife – apressou inovações que garantem a boa colocação do país no ranking mundial da corrupção de elite. Foi aqui, por exemplo, que a ladroagem liderada por figurões da República ultrapassou a barreira do bilhão e a propina passou a ser medida em milhões. Aqui foi morta por excesso de eficiência a Operação Lava Jato. Aqui nasceu e continua existindo o primeiro bando do gênero que já anexou ao elenco de protagonistas dois ministros do Supremo Tribunal Federal.

Alexandre de Moraes e Dias Toffoll Foto: Ton Molina/Estado Condo

Em contrapartida, não existe um só corrupto na multidão de delinquentes espalhados pelo sistema carcerário. É compreensível que os envolvidos nas bandalheiras do caso Master continuem caprichando na pose de protetores da democracia ameaçada por golpistas incuráveis. Nenhum deles parece ter perdido o sono com o derretimento do respeito pelo Supremo reiterado por pesquisas de opinião. É dificil acreditar na punição dos superdoutores, choramingam jornalistas que convivem com integrantes do STF. Também é difícil acreditar que o Brasil decente siga engolindo sem engasgos o silêncio arrogante ou a desconversa esfarrapada dos atropeladores da lei.

Moraes encarregou alguém do seu gabinete de rebater as denúncias da Folha com uma nota que deixaria ruborizado o mais cínico fabricante de fake news. “As ilações da fantasiosa matéria são absolutamente falsas”, começa o desfile de mentiras. “O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia.” A versão foi demolida pela própria mulher do ministro. Divulgada pelo escritório de Viviane Barci de Moraes, a nota primeiro confirma que foi cliente da Prime Aviation, empresa do grupo Master. Em seguida, garante que as incursões pelos céus do país estavam previstas no contrato recordista.

A revelação foi suavizada por uma ressalva inverossímil em mau português: “Todos os valores eram pagos, compensando os honorários advocatícios nos termos contratuais”. Tradução em língua de gente: segundo Viviane, o preço da viagem no jato executivo era descontado da bolada que recebia mensalmente. Se alguém quiser acreditar, paciência. Mas é difícil imaginar Vorcaro, um perdulário patológico, ordenando à secretária que não esquecesse de lembrar ao diretor financeiro que, naquele mês, a bolada depositada na conta da doutora Viviane seria duas viagens de jato menor.

Como ocorre há mais de seis anos, Moraes consolou-se na quinta-feira com a entrada do parceiro Dias Toffoli na mesma encrenca aérea em que se meteu. O Brasil agora sabe que, na manhã de 4 de julho de 2025, o ministro embarcou em Brasília no mesmo jato executivo da Mastertour que transportou Moraes mais de uma vez. Duas horas depois, o viajante chegou a Marília, cidade em que nasceu. No mesmo dia, a pedido do Supremo, seguranças do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região foram deslocados para Ribeirão Claro, na divisa entre São Paulo e o Paraná. Ali fica o agora famoso resort Tayayá, pivô de nebulosas negociações que transferiram também Dias Toffoli para o mundo dos milionários.

Eles estão juntos desde a criação do interminável Inquérito das Fake News, vulgo Inquérito do Fim do Mundo. Fim de mundo é um Supremo dominado por gente assim. E assim será até que os eleitores aprendam que é o povo quem determina o destino de um país. Não custa nada usar corretamente o instrumento do voto. Basta eleger um Congresso suficientemente altivo para impedir o domínio do STF pela bancada que junta os incapazes e os capazes de tudo.

*Augusto Nunes é jornalista e Integrante do Conselho Editorial de Oeste, foi redator-chefe da revista Veja e diretor de redação do Jornal do Brasil, do Estado de S. Paulo, do Zero Hora e da revista Época. Atualmente, é colunista da revista Oeste e integrante do programa oeste Sem Filtro. Apresentou durante oito anos o programa Roda Viva, da TV Cultura.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.