Por: Sérgio Sant’Anna*
No fim de cada ano, há um ritual silencioso que atravessa décadas: ganhamos agendas. Elegantes, minimalistas ou coloridas, elas chegam como promessas encadernadas de um futuro mais organizado. No entanto, ao contrário do entusiasmo de janeiro, fevereiro já revela páginas em branco, intactas como se o tempo tivesse decidido não acontecer ali. A agenda, esse pequeno objeto de planejamento, torna-se, paradoxalmente, um monumento à procrastinação.
Tal fenômeno não é novo. Desde o Iluminismo, quando a racionalidade passou a ditar o ritmo das sociedades, o homem tenta domesticar o tempo. No entanto, como já insinuava o filósofo francês Henri Bergson, o tempo vivido — a duração — escapa às medições rígidas dos relógios e, por extensão, das agendas. Assim, aquele caderninho recém-ganho entra em conflito com a fluidez imprevisível da vida: enquanto ele exige ordem, o cotidiano insiste no improviso.
A literatura também parece rir discretamente dessa tentativa de controle. No Realismo, por exemplo, autores como Machado de Assis já apontavam para a ironia das pretensões humanas. Em suas narrativas, personagens frequentemente planejam, mas raramente executam conforme o previsto. A agenda não usada seria, nesse sentido, uma metáfora machadiana perfeita: um projeto ambicioso derrotado pela inércia ou pela própria natureza volátil da existência.
Por outro lado, o Romantismo talvez explicasse esse abandono de maneira mais indulgente. O sujeito romântico, guiado pelas emoções e pela espontaneidade, dificilmente se submeteria às linhas rígidas de um cronograma. Há algo de profundamente humano em preferir o inesperado ao previamente marcado, em trocar a disciplina pela experiência vivida. A agenda, então, torna-se um símbolo de uma modernidade que nem sempre dialoga com nossos impulsos mais íntimos.
Na música popular, essa tensão entre o tempo planejado e o tempo vivido também se manifesta. Em “Oração ao Tempo”, Caetano Veloso canta: “Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos”. O tempo, nessa perspectiva, não é algo a ser domesticado, mas respeitado em sua autonomia criadora. Talvez por isso a agenda permaneça vazia: não por desleixo, mas por uma inconsciente reverência à imprevisibilidade da vida.
Ainda assim, há quem insista. A cada dezembro, renovamos a esperança de que, no próximo ano, será diferente. Compramos — ou ganhamos — outra agenda, agora mais funcional, mais bonita, mais promissora. Esse ciclo anual revela algo profundamente humano: a crença na reinvenção. Como diria o existencialismo de Sartre, estamos condenados à liberdade, e isso inclui a possibilidade de recomeçar — mesmo que, na prática, pouco mudemos.
No fim, as agendas não usadas não são fracassos, mas testemunhos. Elas guardam não o que fizemos, mas o que pretendíamos fazer — e isso também tem valor. São espaços em branco que, longe de representarem vazio, refletem a complexidade de viver. Afinal, entre o que planejamos e o que realizamos, há sempre um intervalo onde a vida acontece — e, curiosamente, é justamente ali que nenhuma agenda consegue escrever.



