O milagre argentino que esqueceu os argentinos.
Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
Nas últimas semanas, a economia argentina voltou a frequentar o noticiário internacional com a elegância de quem chega atrasado, mas bem vestido. Os números, à primeira vista, são sedutores: o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,4% em 2025 e a inflação desacelerou para 31,5% ao ano — o menor índice em quase uma década. Para parte dos analistas, é o equivalente econômico a um milagre: menos inflação, mais crescimento, aplausos protocolares.
O problema é que milagres costumam cobrar ingresso — e, neste caso, quem paga é a população.
Uma leitura menos apressada dos dados revela que a história contada até aqui é, no mínimo, incompleta. O debate econômico, fascinado por gráficos ascendentes e curvas descendentes, ignora um detalhe incômodo: pessoas não vivem de PIB. Vivem de renda, emprego e previsibilidade — três variáveis que ficaram pelo caminho.
O mercado de trabalho argentino dá o tom do descompasso. O desemprego subiu para 7,5% no quarto trimestre de 2025, o pior nível desde a pandemia. Ao mesmo tempo, a informalidade avançou para cerca de 43%. Traduzindo: cresce o número de pessoas trabalhando sem proteção, sem estabilidade e sem futuro claro — uma economia que gera atividade, mas não cidadania.
A queda da inflação, por sua vez, é um feito técnico respeitável, mas socialmente incompleto. O ajuste fiscal, os cortes de gastos e a liberalização de preços tiveram efeitos colaterais bastante concretos: transporte mais caro, energia mais pesada, alimentação mais difícil. A inflação caiu no papel, mas o custo de vida seguiu de pé — e, em muitos casos, mais alto.

O roteiro não é exatamente inédito. No Brasil, políticas semelhantes marcaram boa parte do período entre 2019 e 2022: austeridade fiscal, retração do Estado e fé quase religiosa na autorregulação dos mercados. Os resultados vieram em forma de algum alívio fiscal, mas também de aumento da desigualdade e maior concentração de renda — uma conta que nunca fecha no curto prazo, mas sempre aparece no longo.
Argentina e Brasil, cada um a seu modo, flertam com a mesma ideia: a de que equilibrar planilhas é mais urgente do que equilibrar a vida real. O crescimento vira fim, não meio. E o cidadão, estatística.
Organismos internacionais já reconheceram a eficácia do ajuste argentino no combate à inflação e na reorganização das contas públicas — com a ressalva habitual, quase burocrática: é preciso cuidar dos efeitos sociais. Em outras palavras, o remédio funcionou, mas o paciente ainda não melhorou.
No fim, o PIB cresce, a inflação cede e a sensação é de progresso — desde que se olhe apenas para os números. Fora deles, a economia segue tropeçando em gente.
Porque uma economia que cresce sem incluir é só isso: um gráfico bonito contando uma história feia.
E a metáfora talvez seja menos elegante do que os relatórios sugerem: reformar um prédio pode até movimentar a economia — inclusive quando há desperdício ou superfaturamento. Mas, se no fim faltam remédios no posto de saúde e renda na mesa, o edifício atende outros interesses.
A história desafinou como milonga de bar vazio: promete cadência, entrega chiado. Fica tudo meio Taquaritinga — parece ensaio de virtude quando visto da plateia, mas é só bater o pé que o palco revela o improviso. Porque, como na economia argentina, o tango até arranca aplauso — desde que ninguém peça bis, confira a conta ou acenda a luz para ver quem explora os artistas.
Por fim, o osso da gestão Bolsonaro, por lá, deixou de ser metáfora: virou cardápio. Na Argentina, a crise não apenas corrói salários — ela rebaixa o prato. Com a carne bovina transformada em artigo de luxo, o que sobra à mesa é a adaptação forçada: a carne de burro deixa de ser exceção folclórica e passa a ocupar, constrangedoramente, o lugar do básico. Não é inovação de mercado; é sobrevivência disfarçada de escolha.
E é esse o liberalismo que o Brasil pretende importar — aquele que promete eficiência, mas entrega escassez, e chama de liberdade o direito de prosperar com distribuição?



