Por: Rodrigo Panichelli*
O Campeonato Paulista de 2026 terminou como muitas vezes termina: com o Sociedade Esportiva Palmeiras campeão. Nada exatamente surpreendente para um clube que, hoje, é um dos mais estruturados e ricos do continente. Elenco caro, investimento pesado, projeto esportivo sólido. Ingredientes que ajudam — e muito — quando o campeonato começa a afunilar.
Mas o Paulistão também deixa algumas perguntas no ar. E elas não desaparecem só porque a taça já foi entregue.
O caminho até a final teve, mais uma vez, um clássico quente na semifinal contra o São Paulo Futebol Clube. Jogo grande, tensão de sempre e, claro, decisões de arbitragem que voltaram a alimentar debates intermináveis. No futebol paulista, a bola raramente rola sozinha. Sempre há um detalhe que vira discussão — principalmente quando se trata de confrontos desse tamanho.
Curiosamente, o futebol brasileiro também mantém uma tradição peculiar: árbitros que protagonizam erros importantes num ano frequentemente aparecem, no seguinte, em jogos ainda maiores. Às vezes até na final. Uma meritocracia que desafia a lógica, mas que parece funcionar muito bem dentro do nosso sistema.
Se o campeão não surpreende, o vice merece aplausos. O Grêmio Novorizontino fez um campeonato enorme. Organizado, competitivo e consciente das próprias limitações, chegou à decisão com méritos. No fim, acabou superado por um dos gigantes da América — algo que, convenhamos, acontece quando um lado investe mais de 400 milhões para montar elenco e estrutura.
Ainda assim, o Novorizontino mostrou que gestão e trabalho podem levar longe. Num campeonato onde convivem clubes milionários e outros que ainda lutam por estrutura básica, isso já diz muito.
E essa é talvez a maior contradição do Paulistão. O torneio continua extremamente atrativo — não apenas pela tradição, mas pelo dinheiro. O prêmio ao campeão vale mais do que levantar a Copa Sul-Americana. Em tempos de calendário apertado e discurso de “pré-temporada”, esse detalhe ajuda a explicar por que ninguém joga exatamente de forma relaxada.
Ainda mais num ano comprimido pela Copa do Mundo FIFA de 2026, que obrigou a Campeonato Paulista a mais uma tentativa de reinventar seu regulamento. Como quase sempre acontece, o sistema até cria emoção, mas acaba favorecendo quem já parte com mais força.
E os outros gigantes? Cada um com sua própria história dentro do campeonato.
O Sport Club Corinthians Paulista mostrou sua velha capacidade de sobreviver em jogos tensos, mantendo aquela identidade competitiva que a torcida conhece bem, ainda que sem conseguir ir até o fim.
Já o Santos Futebol Clube viveu um daqueles Paulistões que deixam mais perguntas do que respostas. Um clube acostumado a revelar talentos e desafiar previsões, mas que ainda busca reencontrar estabilidade dentro e fora de campo.
No fim das contas, o título ficou com quem tinha mais investimento, mais elenco e mais obrigação de vencer.
Se o Palmeiras mereceu o título? Pelo campeonato, sim. Pelo que investe, talvez fosse apenas o esperado.
A verdadeira medida dessa conquista virá lá na frente. Porque para um clube que movimenta cifras gigantescas e sonha alto na América e no mundo, terminar o ano dizendo que ganhou “só” o Paulista pode significar duas coisas bem diferentes.
Depende muito do que vier depois.
E no futebol brasileiro, como sempre, a temporada de verdade ainda está só começando



