Por: Sérgio Sant’Anna
Em tempos de cronogramas, simulados e apostilas marcadas com post-its coloridos, o estudante que se prepara para o ENEM muitas vezes esquece que, antes da técnica, existe o encontro. Encontro silencioso e transformador com a leitura. Não aquela leitura apressada, feita para sublinhar argumentos prontos, mas a leitura que nos atravessa. Afinal, como nos ensinou Paulo Freire, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”; e é justamente essa capacidade de ler o mundo que o exame cobra, ainda que sob o disfarce de competências e habilidades.
Quando um jovem abre um romance de Machado de Assis, por exemplo, não está apenas acompanhando as memórias de um defunto autor; está aprendendo a desconfiar das narrativas, a perceber ironias, a identificar implícitos. E o ENEM, com seus textos longos e interdisciplinares, exige exatamente isso: maturidade interpretativa. Já em Clarice Lispector, a introspecção ensina que as palavras possuem camadas, silêncios e abismos — elementos que fazem toda diferença na hora de compreender uma questão ou de construir uma redação com profundidade.
Do mesmo modo, ao percorrer as veredas de Guimarães Rosa, o estudante percebe que a língua é viva, elástica, reinventável. Essa consciência linguística amplia o repertório e fortalece a escrita. Ler amplia vocabulário, mas vai além: amplia visão de mundo. E visão de mundo é argumento. Como diria Aristóteles, a retórica se sustenta no logos, no ethos e no pathos; ora, sem leitura, não há logos consistente, nem ethos bem fundamentado, tampouco pathos convincente.
Há ainda a dimensão ética da leitura. Ao entrar em contato com a crítica social de Graciliano Ramos ou com a denúncia poética de Carolina Maria de Jesus, o estudante passa a compreender desigualdades, injustiças e silenciamentos históricos. E o ENEM, notadamente em sua proposta de redação, exige sensibilidade social e capacidade de propor intervenções responsáveis. Não se constrói uma proposta consistente sem empatia; e a empatia nasce, muitas vezes, da leitura.
Além disso, filósofos como Friedrich Nietzsche e Hannah Arendt lembram-nos que pensar é um ato de coragem. Ler é exercitar essa coragem diariamente. Ao confrontar ideias divergentes, o estudante aprende a argumentar sem fanatismo, a sustentar posicionamentos com base sólida — habilidade essencial para atingir a tão sonhada nota mil. A leitura, portanto, não é ornamento; é instrumento de emancipação intelectual.
Por fim, talvez seja oportuno recordar Monteiro Lobato, quando afirmou que “um país se faz com homens e livros”. No caso do ENEM, poderíamos adaptar: uma boa nota se faz com leitores e livros. Entretanto, mais do que a nota, a leitura prepara para a vida. O exame passa, o resultado sai, mas o hábito de ler permanece — e é ele que, silenciosamente, continuará abrindo portas muito além das salas de prova.



