Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
Há uma figura recorrente no debate público brasileiro: o sujeito que se autodeclara paladino da liberdade, mas entra em combustão espontânea diante de qualquer ideia que não seja a sua. Defende o “livre pensamento” com a mesma elasticidade mental de um regulamento de quartel. Diz-se antissistema, embora funcione com a eficiência burocrática de um censor de repartição pública dotado de práticas de porcentagem duvidosa em negociatas. Laranjas nunca caem longe do pé. É regra da casa — e, quando caem, repetem o selo de origem e o vício de fábrica.
Esse personagem costuma habitar a direita que flertou com soluções autoritárias, romantizou coturnos e passou a vida confundindo disciplina com virtude. Jura, com a segurança de quem nunca passou do subtítulo, que toda a esquerda é uma seita dedicada à veneração compulsória de ditadores mortos — ou imaginários.
Para ele, o mundo é confortavelmente binário. De um lado, os esclarecidos (ele e mais três perfis anônimos). Do outro, “os comunistas”. Pouco importa que comunismo, progressismo, social-democracia ou liberalismo keynesiano sejam coisas distintas. Tudo vira um caldo ideológico ralo, temperado com palavrões, emojis agressivos e CAPS LOCK — a gramática oficial da indignação permanente.
O traço mais curioso está na retórica: chamam os outros de ignorantes enquanto demonstram não saber distinguir um panfleto soviético de um texto introdutório de economia do século XX. Enquanto alguns citam autores, contextos históricos e dados minimamente verificáveis, eles respondem com memes reciclados e a acusação genérica de “doutrinação”. Ler três parágrafos seguidos, afinal, exige uma concentração incompatível com a fúria instantânea.
Convém registrar, ainda que soe óbvio: ignorante não é quem escreve. Ignorante é quem xinga. Quem reduz o outro a um rótulo por absoluta incapacidade de sustentar um argumento. Quem substitui o pensamento pelo ataque pessoal — não por maldade estratégica, mas por escassez de repertório.

Enquanto denunciam ditadores imaginários, ignoram — com notável disciplina — que muitos dos alvos de seu ódio defendem exatamente aquilo que dizem amar: instituições, democracia, direitos individuais e uma economia mista funcional. Autores como Keynes seguem sendo desconhecidos úteis: é mais confortável chamá-los de “comunistas” do que aceitar que o mundo real não cabe em slogan de rede social.
No fim, talvez a burrice não esteja nos textos longos, cheios de nuance e referências incômodas. Talvez ela esteja em quem não lê, não entende e, por isso mesmo, grita. O ódio, quase sempre, é apenas a frustração de quem não consegue escrever três linhas — mas não suporta quem consegue.
E quem atravessa a vida pendurado em heranças mal explicadas, convicções de segunda mão e certezas alugadas talvez devesse evitar o debate público. É W.O. técnico. Volte ao início, retire a senha da realidade e, com alguma sorte e menos raiva, tente começar — finalmente — a pensar. Se isso for muito difícil, faça o básico: cuide da suas relações, da sua própria casa — antes de sair por aí tentando fazer auditoria moral na vida dos outros.


