Em entrevista ao programa Giro Massa, jornalista taquaritinguense resgata a criação do bloco, critica tentativas de apropriação e reforça que a festa pertence ao povo
Nesta terça-feira, o programa Giro Massa, apresentado pelo jornalista Auro Ferreira, recebeu um dos nomes mais respeitados do jornalismo brasileiro, o taquaritinguense Augusto Nunes. Em uma conversa extensa, marcada por memória, reflexão e posicionamentos firmes, o jornalista falou sobre o carnaval de Taquaritinga, em especial sobre o surgimento do Bloco Jardineira da Tarde, que hoje se consolidou como um dos maiores símbolos da festa popular no município, reunindo milhares de foliões nas tardes de sábado e segunda-feira de carnaval.
Logo no início da entrevista, Augusto contextualizou o momento profissional vivido atualmente, à frente da Revista Oeste, destacando o volume inédito de informações que marca o cenário nacional e internacional. Segundo ele, o jornalismo atravessa um período de intensa produção noticiosa, com acontecimentos diários de grande impacto. Nesse contexto, o carnaval surge também como um breve respiro coletivo, ainda que inserido em um ano marcado por eleições, Copa do Mundo e forte mobilização política. Para o jornalista, informar com integridade, credibilidade e compromisso com os fatos é um dever permanente da profissão.
Ao ser provocado por Auro Ferreira a falar sobre a Jardineira da Tarde, Augusto adotou um tom cauteloso e, ao mesmo tempo, didático. Ele fez questão de afastar qualquer tentativa de personalização da história do bloco, reforçando que festas populares não têm dono. De acordo com seu relato, a ideia nasceu em 2008, a partir de uma conversa familiar com sua filha, Branca Nunes, também jornalista, que vivia no Rio de Janeiro e participava de blocos de rua com características abertas e espontâneas. A proposta era simples e, justamente por isso, potente: criar em Taquaritinga um bloco em que qualquer pessoa pudesse participar, sem distinção de idade, classe social, fantasia ou vínculo com outros blocos.
As primeiras reuniões aconteceram na casa onde Augusto passou grande parte da vida, na região da General Glicério, espaço que acabou se tornando um ponto simbólico da concepção do projeto. A ideia foi lançada para o Carnaval de 2009, com alguns princípios claros. O bloco sairia à tarde, aos sábados e às segundas-feiras, respeitando o calendário tradicional dos desfiles das escolas de samba no domingo e na terça. O horário, a partir das quatro da tarde, remetia às antigas jardineiras, veículos que antecederam os ônibus e marcaram a memória coletiva da cidade.
Outro ponto essencial era o repertório musical. Ficou definido que seriam tocadas marchinhas tradicionais, evitando músicas que pudessem gerar rivalidades, como marchinhas associadas a times de futebol. A preocupação com a convivência pacífica era central. O formato em movimento, acompanhando um caminhão de som, também foi pensado como estratégia para reduzir conflitos. Conforme explicou Augusto, sem plateia e sem imobilidade, a lógica da briga perde espaço.
No primeiro desfile, a expectativa era modesta. Para surpresa dos organizadores, cerca de 300 pessoas participaram já no sábado inicial. Na segunda-feira, o número dobrou, chegando a 600 foliões. O que chamou atenção, segundo Augusto, foi a diversidade do público. Havia crianças de colo, idosos, famílias inteiras, integrantes de diferentes blocos e nenhum registro de violência. O sucesso espontâneo confirmou que a proposta havia sido compreendida e acolhida pelo povo.
No segundo ano, o crescimento foi exponencial. O público ultrapassou dois mil participantes por desfile, iniciando um processo que levaria a Jardineira da Tarde a se transformar, proporcionalmente, em um dos maiores blocos do Brasil. Fotografias aéreas, analisadas posteriormente, indicaram a presença de 20 mil a 30 mil pessoas, ocupando praticamente todo o centro da cidade, desenhado no tradicional formato de tabuleiro de xadrez. Em uma cidade com pouco mais de 51 mil habitantes, o impacto é comparável, nas palavras de Augusto, a um bloco com milhões de pessoas em uma metrópole como São Paulo.
Apesar do êxito, o jornalista também expressou preocupação com rumos que o evento passou a tomar ao longo dos anos. Segundo ele, surgiram disputas e tentativas de apropriação simbólica e financeira da Jardineira, o que considera incompatível com a essência da festa. Augusto foi enfático ao criticar pessoas que se apresentam como criadoras ou donas do bloco. Para ele, a Jardineira é filha do povo de Taquaritinga, que decidiu, coletivamente, encampar a ideia e transformá-la em tradição.
Outro ponto sensível abordado na entrevista foi a questão do uso de recursos públicos. Augusto relembrou que, nos primeiros anos, os custos foram mínimos e, em grande parte, arcados por ele próprio, especialmente o pagamento dos músicos, por entender que o trabalho artístico deve ser valorizado. Ele defende que o carnaval popular não deve se transformar em mecanismo de exploração financeira nem em justificativa para gastos excessivos do poder público, sobretudo em uma cidade com baixa arrecadação e desafios econômicos estruturais.
Ao analisar o futuro, Augusto Nunes apontou que Taquaritinga ainda busca sua vocação econômica, mas não descartou que o carnaval de rua possa se tornar uma delas, desde que pensado de forma sustentável e comunitária. Ele citou exemplos de cidades que se especializaram em determinados setores e sugeriu que o carnaval pode gerar oportunidades locais, como a produção de fantasias por costureiras da própria cidade. No entanto, reforçou que isso não deve ser feito à custa do bolso do contribuinte, especialmente da população mais pobre.
Ao final da entrevista, Augusto agradeceu o espaço para esclarecer sua posição e reiterou que continuará participando do carnaval como sempre fez, misturado ao povo, sem reivindicar protagonismo. Para ele, preservar o espírito do carnaval significa resistir à ganância, à disputa e à mercantilização de uma festa que nasceu para ser alegria, encontro e expressão popular.



