Por: Gustavo Antonio Ascencio*
Na faculdade, durante o curso de Introdução aos Estudos Clássicos, li o famoso texto de Ítalo Calvino intitulado “Por que ler os Clássicos?”, no qual o autor, entre os seus quatorze aforismos, defende muito elegantemente a necessidade de lermos esses livros que se canonizaram na história da literatura e que, cada vez mais, são renegados nas estantes de livrarias, quando muito nelas se encontram. Acredito que Calvino esteja dando cambalhotas em seu caixão na Toscana ao dar-se conta, assim como eu o fiz nesta semana, do termo pós-moderno “performative reading”. Trata-se, como a própria literalidade de sua tradução nos indica, de uma ato performático de leitura, sobretudo a clássica com seus calhamaços e autores consagrados, um apelo estético para que se seja visto e compreendido como leitor, como um culto das letras, quando na verdade não se é. Para isso, carrega-se Homero para cima e para baixo em vias públicas, leva-se Melville ao parque, uma foto com um Thomas Mann ao lado de um expresso, que tal? Enfim, coisas do tipo.
Veja, não vou dizer que não existam limites, porque existem. Não entendo por exemplo a compra de livros “ocos” para figurarem em um aparador ou se empilham numa mesinha de centro ao lado de uma planta de plástico. Estes não servem nem para serem folheados enquanto se aguarda pelo próximo assunto blasé, pois sequer páginas possuem! Penso aí já ser demais. Mas, dado o buraco em que já nos encontramos, seria mesmo tão absurdo assim termos a companhia de livros nos nossos trajetos cotidianos ainda que, a princípio, sem a menor intenção de lê-los? Entrarmos em conversas literárias e tecermos comentários genéricos sobre títulos clássicos que nunca pusemos os olhos mas, ao mesmo tempo, falarmos sim sobre o assunto? Sermos avistados em público, em contato com um livro, virando páginas despretensiosamente apenas para passar o tempo?
Não sei, pode soar como desespero, mas deixe-me avisá-lo, colega leitor: estamos perdendo espaço. Já é batido discorrer sobre o enfraquecimento do mercado editorial. Em 2024, pela primeira vez na história, mais da metade do Brasil não leu nem ao menos um parágrafo de um livro — um parágrafo! Estamos mesmo na condição de escolher como, onde e quando se é adequado ter livros por perto? Fingimos ser tantas coisas horríveis em nossas redes sociais, trabalho, conversas mundanas. Que ao menos finjamos ser leitores! Vai que, numa dessas performances ao olhar alheio, passemos a fazer para o nosso próprio e tomamos gosto pela coisa. Seria muita ingenuidade de minha parte? Suponhamos que sim, ainda assim lhes digo: mentira pela mentira, prefiro viver uma literária. Lembro-me de outro curso, o de Literatura Brasileira IV, quando uma professora disse à turma: se você nunca leu Memórias Póstumas, guarde para você e finja ter lido enquanto o lê de fato. Assumo que foi o que fiz. Todos nós, leitores “verdadeiros”, somos acometidos pelo ego às vezes, é inevitável. Infelizmente não teremos tempo para lermos tudo. Sempre iremos nos deparar com um novo livro cuja não-leitura configura-se em um sacrilégio e, diante de tal mácula, a depender do contexto, iremos dissimular, “sim, claro, reli-o mês passado, sublime, sublime.” Mentira!
Antes da alfabetização, minha mãe lia livros para mim. Lembro-me vagamente, e assim dizem os causos familiares, que de tanto ouvir uma mesma história, passei a decorar as ilustrações e as palavras ditas por ela. Certa vez, fui pego “lendo”, associando o que rememorava ter sido lido por mamãe quando determinada ilustração surgia em uma página. Comecei fingindo. Uma performance. Serei crucificado?
Portanto, caso encontre um leitor performático por aí segurando um James Joyce, puxe uma conversa, mesmo que você próprio não tenha a menor ideia do que se trata. Tenha um diálogo esquizofrênico sobre literatura. Ao menos isso.



