Por: Igor Sant’Anna*
Vivemos tempos de contradições. A Constituição afirma que o poder emana do povo, mas quem observa atentamente a política percebe uma dura realidade: nossa democracia está cada vez mais sequestrada por grupos restritos.
No discurso oficial, o povo é soberano, mas na prática os cidadãos só são lembrados em época de eleição. Depois do voto, o poder se concentra em partidos, corporações, sindicatos, tribunais e grandes empresários. É o retrato da oligarquia moderna, onde poucos decidem e muitos obedecem.
Não se trata de negar os mecanismos democráticos como as eleições, liberdade de imprensa, parlamento aberto, mas o que vemos é que esses mecanismos se transformaram em fachada. A democracia virou ritual, não substância. Quem financia campanhas, controla a máquina do Estado ou manipula narrativas acaba ditando os rumos do país.
Essa é a perversão da política contemporânea: em vez de uma aristocracia verdadeira, no sentido clássico, governada pelos melhores, pelos mais preparados e virtuosos, vivemos sob uma aristocracia falsa, onde a “elite” se julga dona da verdade, mas só defende interesses próprios.
O resultado é um povo desiludido (vemos na nossa última eleição os números de abstenções) e será que isso te assusta ou te conforta?, que perde a confiança nas instituições e vê crescer um abismo entre governados e governantes. Enquanto isso, discursos populistas tentam mascarar a realidade, como se a democracia fosse plena, quando já não passa de sombra.
Se quisermos resgatar a verdadeira democracia, precisamos devolver ao povo não apenas o direito de votar, mas a capacidade de participar, fiscalizar e cobrar.
Caso contrário, continuaremos prisioneiros de uma oligarquia disfarçada, onde poucos enriquecem e muitos empobrecem.



