Por: Gustavo Antonio Ascencio*
Durante a pandemia, cursava remotamente a disciplina Literatura Comparada II, ministrada Viviana Bosi. Tratava-se de um curso inteiro com enfoque no elemento narrativo que mais me intriga, o tempo. De antemão, professora Bosi nos informou que as aulas aconteceriam de forma assíncrona, pois ela infelizmente possuía um familiar internado. Não entrou em mais detalhes, muito embora todos suspeitássemos de quem poderia ser: Alfredo Bosi, seu pai e um dos maiores críticos literários brasileiros. Para a conclusão do curso, solicitou um trabalho sucinto sobre uma obra, à escolha do discente, cuja construção rendesse, do ponto de vista temporal, substância analítica. Escolhi Vanka, conto do gênio russo Anton Tchekhov, por dois motivos: gostava do texto e, definitivamente, o tempo impunha consequências centrais em sua história. Fiz o trabalho correndo, admito, nem sequer assisti a todas as aulas do curso, já gravadas e disponibilizadas no AVA da faculdade.
Os meses se passavam e nada de Bosi disponibilizar minha nota. Julguei o atraso se dar em decorrência da ausência de seu pai e o terrível amálgama característico desses momentos, composto pela fragilidade emocional e as responsabilidades burocráticas que se seguem à partida de um familiar. Faltando uma semana para que se fechasse a janela de lançamento de notas, recebo um e-mail um tanto constrangido de minha docente. Nele, dizia estar numa indecisão quanto a minha dissertação, uma vez que minha análise de Vanka era, em maior ou menor medida, muito semelhante à análise que a própria havia feito em uma aula daquele curso. Com o coração acelerado e a vista turva, procurei entre as abas do meu navegador as aulas que ainda não havia assistido, e de fato havia uma aula completa dedicada a Vanka, de Tchekov.
Resumindo, por fazer meu trabalho sem assistir ao curso completo, acabei, sem saber, “plagiando” minha professora. No final das contas, tomei o acontecido como um elogio silencioso, do qual não poderia me gabar ou nem mesmo justificar a ela, afinal, Bosi nunca daria fé naquilo. Senti-me como o personagem de Verissimo que perde sua aliança durante uma improvável troca de pneu, mas resolve dizer à esposa que fora durante uma traição, do contrário a mulher nunca acreditaria no infortúnio do acaso.
Falando em Verissimo, afinal esta crônica também é sobre ele, depois de ler no fatídico e-mail que deveria submeter um novo trabalho em menos de sete dias, um querido amigo da faculdade de nome Felipe, após ouvir este mesmo relato que vocês agora leem, acrescido apenas de um “o que eu faço agora?” ao final, indicou-me o conto “O condomínio”, do autor em questão.
Maravilhei-me tanto com a primazia simplista e ao mesmo tempo tão contundente do estilo de Verissimo que, para que pudesse analisá-lo novamente, cometeria outros tantos pseudo-plágios acadêmicos. Na narrativa, um homem reconhece o seu torturador durante a Ditadura como sendo, então, o seu vizinho de prédio e, brilhantemente, opondo passado e presente numa dicotomia que afeta desde os recortes daquela e da nossa história, passando pelos espaços particulares e as posses das personagens até desaguar na psiquê de cada uma delas, o autor acentua numa agridoce mistura tragicômica as contradições que o nosso processo de redemocratização pariu, como por exemplo a vergonhosa Lei da Anistia. É brilhante, brilhante.
Em plena reunião de condomínio, João, o torturado, diz se lembrar de tudo, menos dos codinomes animalesco que possuíam naquela época. Ao que seu torturador/vizinho, sem remorso algum, lhe responde: “Me esqueci como era. Essas coisas não têm mais importância.”
Luis Fernando Verissimo nos deixou há pouco mais de uma semana, no dia 30 de agosto. No debate público, fala-se em anistia e esquecimento novamente. Uma pena não termos mais a perspicácia do maior cronista brasileiro para nos acompanhar.
Sobrou-nos a mediocridade. Tirei 8 no trabalho, a propósito.
£



