Por: Gustavo Girotto* e Raphael Anselmo**
A tentativa de articular uma anistia para Jair Bolsonaro, liderada por setores do Congresso e apoiada de forma velada ou explícita pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, expõe mais do que uma movimentação política: trata-se de um ataque direto ao coração da democracia brasileira.
Nos últimos meses, Tarcísio assumiu um papel de operador político do bolsonarismo — ora disfarçado de gestor técnico, ora se revelando como peça-chave na preservação do capital político de seu padrinho. A defesa de anistia para Bolsonaro e seus aliados não é gesto de magnanimidade ou pacificação nacional, como tenta se vender. É um contra-golpe institucional, uma tentativa de reescrever a história e livrar de consequências aqueles que atentaram contra a Constituição.
Políticos que se empenham em “passar pano” para golpistas não são mediadores, mas cúmplices. Ao advogar pelo esquecimento jurídico e histórico de atos que colocaram o país à beira do caos, Tarcísio demonstra que a lealdade pessoal se sobrepõe ao dever constitucional. Em qualquer democracia madura, essa postura seria intolerável. Assim como o corpo humano expulsa um espinho para evitar a infecção, a democracia deveria repelir quem atua contra sua integridade.
O Brasil já conhece o peso das anistias malfeitas. A de 1979, que colocou sob o mesmo guarda-chuva perseguidos políticos e torturadores, deixou como herança a impunidade de crimes cometidos pela ditadura. Hoje, o país colhe as consequências dessa “conciliação” mal costurada: militares que se julgam acima da lei, negacionistas da história e a permanência de uma cultura de autoritarismo que volta e meia tenta se impor. A anistia a Bolsonaro e seus seguidores seria repetir esse erro em plena democracia. Significaria legitimar a tentativa de golpe de 8 de janeiro como se fosse um episódio menor, um excesso de militância. Ao contrário: foi uma agressão planejada, financiada e estimulada por lideranças políticas que se recusaram a aceitar o resultado das urnas.
Tarcísio de Freitas, governador do maior estado do país, deveria atuar como guardião da estabilidade institucional. Mas ao se engajar nos bastidores em favor da anistia, revela que não age como estadista, e sim como fiador de um projeto de poder que não se conforma com as regras do jogo democrático. Sua postura alimenta um risco concreto: o de sinalizar a futuros aventureiros que atentar contra a democracia pode ser, no máximo, um desvio corrigido com perdão oficial.
O que está em jogo não é apenas o destino de Bolsonaro, mas a resiliência da democracia brasileira. Se anistiar golpistas se tornar regra, a Constituição vira peça decorativa, e o voto popular perde força diante da chantagem permanente de grupos que se sabem impunes. A sociedade civil, as instituições e a imprensa têm a responsabilidade de não normalizar esse debate. É preciso dizer com todas as letras: anistiar quem tentou destruir a democracia é corroer os alicerces do regime democrático.
A história não perdoa sociedades que preferem o esquecimento à justiça. O Brasil já errou antes. Agora, diante da articulação liderada por Tarcísio de Freitas, precisa decidir se repetirá a tragédia ou se, finalmente, dará uma resposta firme: quem atenta contra a democracia não merece perdão, merece responsabilização.
Em Taquaritinga, esse microquintal do conservadorismo, o jogo político nunca é sobre ideologia — é sobre sobrevivência.
As bases locais, famintas por prestígio, disputam o papel de guardiãs da moral, mas na prática concorrem para ver quem se ajoelha mais rápido no jornal.
A coreografia é sempre a mesma: favores em troca de silêncio, cargos como moeda, declarações moldadas sob encomenda.
No fim, sobra uma questão incômoda: em meio a tanto teatro, quem terá coragem de ficar, de fato, ao lado da democracia que os elegeu?




